Com mais de quatro décadas dedicadas à medicina e à organização de sistemas de saúde, o Prof. Dr. Robert Janett é uma das principais referências internacionais em Atenção Primária e modelos assistenciais baseados em valor. Médico e professor assistente da Harvard Medical School, ele construiu uma trajetória marcada pela atuação em contextos diversos, da prática clínica em comunidades multiculturais à liderança em iniciativas voltadas à qualidade e sustentabilidade do cuidado.
No início do mês esteve em Rio Preto, a convite da Unimed Rio Preto, e participou do evento “O Futuro da Saúde e da Longevidade”, reunindo médicos, gestores e lideranças para discutir os impactos do envelhecimento populacional e os caminhos possíveis para transformar o sistema de saúde.
Com base em experiências internacionais, Janett apresentou estratégias concretas que já vêm sendo aplicadas em centros de excelência e que reforçam um ponto central: o futuro da medicina está na prevenção, na coordenação do cuidado e na construção de vínculos duradouros com os pacientes.
Nesta entrevista, ele aborda a evolução da atenção primária, os desafios culturais na adoção de práticas preventivas, o papel da Medicina do Estilo de Vida e as perspectivas para um sistema de saúde mais eficiente, humano e sustentável.
Confira a entrevista a seguir:
BE – O senhor tem mais de 40 anos de atuação em medicina. Como a atenção primária evoluiu ao longo desse período, especialmente em contextos multiculturais?
Robert Janett – Conheço vários países do mundo e posso dizer que o Brasil é o meu favorito, pois aqui temos um cenário muito interessante. Em muitos países, a Atenção Primária quase não existe, e o que vemos é muita fragmentação e, principalmente, desperdício. A Atenção Primária é um modelo focado no paciente, no qual o médico de família conhece o histórico, o estilo de vida e as limitações de cada pessoa que atende. É um profissional que pensa na saúde de forma ampla, com foco na prevenção, e não apenas em tratar o problema pontual.
Hoje, o aumento da expectativa de vida é uma realidade global. A população está envelhecendo e isso é positivo. As pessoas estão percebendo que é preciso se prevenir. A preocupação agora é: quem vai cuidar de nós no futuro? Por isso, precisamos nos cuidar hoje, envelhecer com saúde, manter autonomia e aproveitar melhor esse tempo extra que estamos ganhando.
BE – Trabalhando em uma clínica multiétnica vinculada à Cambridge Health Alliance, quais são os principais desafios e aprendizados no cuidado de populações diversas?
Robert Janett – Nosso maior desafio é fazer com que as pessoas entendam a importância do cuidado preventivo. A maioria das doenças, especialmente as crônicas, pode ser evitada ou ter sua progressão retardada.
Na minha clínica, quando percebo que um paciente está há muito tempo sem consulta, eu mesmo entro em contato, às vezes até em um domingo. Ligo e digo: “Meu amigo, faz tempo que não o vejo no consultório. Está na hora de fazer seus exames.”
Os pacientes se surpreendem positivamente com esse cuidado. Isso fortalece a relação, aproxima e permite entender melhor a rotina de cada um. Essa busca ativa é muitas vezes o que faz a diferença. Culturalmente, muitas pessoas ainda procuram o médico apenas quando estão doentes, e esse é um comportamento que precisamos mudar.
BE – O conceito de Medicina do Estilo de Vida (MEV) vem ganhando destaque. Como o senhor define esse modelo e qual é sua importância na prática clínica atual?
Robert Janett – A Medicina do Estilo de Vida tem em seus pilares fortes garantidores de longevidade com qualidade. Não adianta viver mais sem saúde.
De que adianta chegar aos 80 anos sem autonomia para caminhar, viajar ou aproveitar a vida?
Esse modelo se baseia na prevenção por meio de hábitos saudáveis. Sabemos que doenças crônicas, como diabetes e obesidade, estão diretamente relacionadas ao estilo de vida e não surgem de um dia para o outro.
Muitas vezes, uma simples mudança na alimentação ou na rotina já é suficiente para reverter um quadro, sem necessidade de medicamentos. O papel do médico também é alertar, orientar e intervir no momento certo.
BE – Quais são os pilares da Medicina do Estilo de Vida que o senhor considera mais impactantes para a prevenção de doenças crônicas?
Robert Janett – Os pilares da Medicina do Estilo de Vida são claros, embora muitas vezes negligenciados: alimentação equilibrada, atividade física regular, qualidade do sono, controle do estresse e boas relações sociais.
O grande desafio não é conhecer esses pilares, porque, no fundo, todos sabem, mas colocá-los em prática de forma consistente e ao longo do tempo.
Outro ponto importante é que não existe idade certa para começar. O ideal é iniciar desde cedo, mas nunca é tarde. Seja aos 30, 50 ou 70 anos, sempre há tempo para melhorar a qualidade de vida.
BE – Na sua experiência internacional, como países da América Latina, incluindo o Brasil, estão incorporando práticas de MEV em seus sistemas de saúde?
Robert Janett – Existe um movimento crescente na América Latina de valorização da prevenção. Os sistemas de saúde estão entendendo que prevenir é mais eficaz e também mais sustentável do ponto de vista econômico. Por isto, a incorporação de práticas de MEV nos sistemas de saúde serão uma tendência, seja por médicos com esta formação, assim como por especialistas e generalistas que têm olhar global sobre o paciente.
BE – A longevidade tem aumentado globalmente, mas nem sempre com qualidade de vida. Na sua visão, quais são os maiores desafios para envelhecer com saúde hoje?
Robert Janett – O maior desafio é criar consciência sobre a importância do estilo de vida como ferramenta de prevenção. Precisamos mudar a cultura de procurar o médico apenas quando há doença.
Consultas regulares, no mínimo anualmente, por exemplo, trazem inúmeros benefícios e permitem acompanhar a saúde de forma contínua.
BE – O Brasil passa por uma transição demográfica importante. Como o senhor avalia a preparação do sistema de saúde brasileiro para lidar com o envelhecimento da população?
Robert Janett – Muitas vezes, o brasileiro não tem dimensão da vantagem que possui em relação a outros países. O sistema de saúde aqui oferece acesso gratuito, algo que em muitos lugares é caro e limitado.
No entanto, entra a questão cultural. A responsabilidade pela saúde é, em grande parte, do próprio paciente. Informação existe, todos sabem da importância de se cuidar, mas é preciso agir: marcar consultas, fazer exames e dar continuidade ao acompanhamento.
Não adianta iniciar um cuidado e abandoná-lo. Eu costumo dizer que 85% da responsabilidade é do paciente e 15% do médico ou do sistema.
Ainda assim, percebo um movimento global, inclusive no Brasil, de valorização da prevenção, até porque ela é economicamente mais viável do que o tratamento.
BE – Que hábitos ou mudanças de estilo de vida o senhor considera essenciais para promover longevidade saudável desde a meia idade?
Robert Janett – Não existe um momento ideal no calendário para começar, o melhor dia é hoje.
Comece pelo simples: cuide da alimentação e pratique alguma atividade física.
Não consegue todos os dias? Não tem problema. Comece aos poucos, aproveite as oportunidades. Uma caminhada no fim de semana já é um passo importante.
O mais importante é tomar a decisão e manter o compromisso consigo mesmo.
BE – Como políticas públicas podem incentivar práticas de prevenção e promoção de saúde, especialmente em países com desigualdades como o Brasil?
Robert Janett – As políticas públicas são fundamentais para fortalecer a Atenção Primária, especialmente em países com desigualdades. Mas essa visão também precisa alcançar o setor privado.
Fiquei muito impressionado com as iniciativas da Unimed Rio Preto. Há diversos programas com acompanhamento, orientação e até busca ativa de pacientes, muitas vezes com apoio da tecnologia, jornadas e processos bem definidos.
Quando o sistema facilita o acesso, orienta e acompanha, as pessoas aderem mais. No entanto, é importante entender que não basta oferecer serviços, é preciso comunicar, incentivar e aproximar.
A prevenção não acontece sozinha. Ela precisa ser estimulada. E quando o sistema consegue chegar até as pessoas e acompanhá-las ao longo do tempo, é possível transformar o cenário de saúde de forma consistente.
BE – Para médicos e profissionais de saúde mais jovens, qual conselho o senhor daria sobre a importância da atenção primária e da abordagem centrada no paciente?
Robert Janett – Meu principal conselho é: olhe para o paciente além da doença.
A Atenção Primária é, sobretudo, uma relação de confiança. Quando você conhece a rotina, os hábitos e as dificuldades do paciente, o cuidado se torna muito mais eficaz.
Aproxime-se, converse, demonstre interesse genuíno. Pergunte sobre a vida, a família, os interesses. Isso cria vínculo, e é esse vínculo que faz o paciente aderir ao cuidado.
A medicina não pode ser apenas técnica. Ela precisa ser humana. E é nos cuidados primários que tudo começa: prevenção, acompanhamento e construção de uma saúde sustentável ao longo da vida.
