Rio Preto é a cidade onde Loreni Fernandes Gutierrez construiu grande parte da própria história. Natural de General Salgado, ela chegou ao município há 55 anos, formou-se em Letras pela Unesp, desenvolveu carreira como auditora fiscal da Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo e, anos depois, encontrou na literatura um novo propósito de vida. Hoje, aos 73 anos, divide o tempo entre a escrita, projetos sociais e a presidência da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura (Arlec).
Nesta entrevista, Loreni fala sobre a influência da família, a importância dos tributos para a sociedade, o despertar para a literatura, os desafios de incentivar a leitura em tempos de excesso de telas e o papel da cultura na formação de uma sociedade mais consciente. Também compartilha reflexões sobre sonhos, solidariedade e o legado que deseja deixar às novas gerações.
A família ocupa um lugar especial na vida de Loreni. Mãe de Maria Carolina e avó da pequena Melissa, de seis meses, ela fala sobre as duas com a mesma delicadeza que imprime em seus textos. “Torço para que seja doce, pois seu nome, em grego, significa abelha. Melissa era, na mitologia, o nome de uma ninfa que cuidava dos filhos de Zeus, alimentando-os com mel”, afirma.
Confira abaixo a entrevista.
Bem-estar - Sua trajetória reúne diferentes capítulos: fiscal de renda, escritora e presidente da ARLEC. Como essas experiências ajudaram a construir a mulher que você é hoje?
Loreni Fernandes Gutierrez - Fui bancária na década de setenta no extinto Mercantil de São Paulo e, concurseira, ingressei como Técnica Administrativa na Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo. Fui, por um curto período, técnica do Tesouro Nacional, na Receita Federal e, a seguir, tomei posse como auditora fiscal da Secretaria da Fazenda Estadual, onde me aposentei.
Bem-estar - Ao longo da vida profissional como fiscal de renda, quais valores e aprendizados marcaram sua trajetória? Foi uma carreira fácil de administrar?
Loreni - Não obstante eu não ter cursado Direito, participei com um grupo de auditores selecionados no julgamento de processos fiscais e tributários na DRT-1 (Capital), próximos de entrarem em decadência e prescrição. Permeei durante cinco anos entre a resistência do contribuinte aos impostos excessivos e às necessidades do Estado em gerir recursos para manter os serviços essenciais, já que os tributos têm, sim, uma finalidade estritamente social. Um conflito e tanto, por conta dos “descaminhos” pelos caminhos. Permaneci depois num serviço interno de programação fiscal, mais fácil de administrar.
Bem-estar - Ao longo da vida profissional como fiscal de renda, quais valores e aprendizados marcaram sua trajetória?
Loreni - O respeito ao próximo, que desde cedo aprendi com os meus pais, bem como ser solidária, aliados à minha fé, direcionaram-me a um bom convívio social. E meu aprendizado, como auditora, fez-me ver a importância do tributo para o desenvolvimento de um país, sendo fonte de recursos do Estado para a manutenção dos serviços públicos e da infraestrutura numa administração governamental. Sempre achei que se deveria colocar nas escolas, desde o ensino fundamental, até mesmo de uma maneira lúdica, noções sobre legislação tributária (especificamente sobre os impostos), para que os jovens crescessem conscientes de que esses tributos seriam aplicados em prol da comunidade. Desta forma, se tornariam cidadãos conscientes e o mundo ficaria melhor num futuro próximo, sem a famigerada figura do descaminho e da corrupção.
Bem-estar - Quando descobriu que a escrita faria parte da sua vida?
Loreni - As razões da escrita são subjetivas. As experiências vividas se contextualizam e surge a necessidade de retratá-las. Escrever, além de ser um ato de coragem, é também uma catarse, pois libera sentimentos intensos e até reprimidos. Escrevendo, mostramos o mundo que nos circunda do jeito que o enxergamos, que é ou que poderia ter sido. Foi assim comigo, não mais que de repente, como creio que aconteça com os demais.
Bem-estar - Houve algum momento ou inspiração que despertou essa paixão pelos livros?
Loreni - Penso que a empatia pelos personagens; o distanciamento da realidade, entrando às vezes num mundo mágico; a chegada a um porto seguro com cenários e experiências diferenciadas ou iguais àquelas que idealizamos - para mim foi isto, mas anos depois. Não aprecio histórias tristes e amo finais felizes, até porque acredito que ninguém consegue ser totalmente feliz até que todos não sejam felizes. Pena que nem sempre seja assim.
Bem-estar - Quantos livros você já publicou, entre obras autorais e coletâneas? Quais títulos fazem parte dessa trajetória?
Loreni - Caminho neste ano para o sexto livro: “Euriteia, a tecelã dos fios de chuva”. Atrasadíssimo. Cheguei a pensar que nunca o terminaria. Participei também de muitas coletâneas. Em fevereiro de 2018, criei um grupo para ajudar uma instituição riopretana de cães abandonados e acabei me envolvendo de tal forma que quase me tornei ativista. Percebi que me afastava de atividades essenciais, como a escrita, e que acabaria adoecendo por ver de perto tanto abandono e maus-tratos com os pequeninos, e me centrei na doação de alimentos. Tenho comigo pessoas comprometidas e doamos 800 quilos de ração mensalmente ao Grupo Patas, bem como mantinhas no período de frio. É triste lidar com o abandono! Tenho outro grupo ligado à Pia Santo Antônio, da Basílica, que fez 10 anos em fevereiro e tem como presidente a Rose Jamal. Nele doamos leite em pó para crianças necessitadas, devidamente cadastradas pela presidente.
Bem-estar - Seus textos carregam histórias, reflexões e sentimentos. O que você espera despertar nos leitores a cada novo texto?
Loreni - Escrever é expressar emoções, e os textos só ganham vida na medida em que passam pelos olhos do leitor. E, como o pressuposto de toda criação literária é o de que a obra seja lida, escrevo imaginando a empatia que aqueles que lerão os meus escritos sentirão pela história e pelos personagens que nela transitam. Até o escritor se apaixona por eles e se entristece quando tem que soltá-los no mundo. Espero que meus enredos aliviem a solidão crescente nesta terra abençoada de todos e de ninguém. Talvez por isto eu seja leve. Um amigo sugeriu que eu escrevesse um serial killer. Certamente estava brincando. A miséria humana existe a céu aberto, mas não dentro de meus livros.
Bem-estar - Em uma época em que as telas ocupam grande parte do nosso tempo, qual é a importância da literatura e do hábito da leitura para crianças, jovens e adultos?
Loreni - Penso que o que falta, para as crianças de hoje, é a imposição de limites no celular e noutras telas, além do incentivo à leitura, que lhes dará vazão à imaginação. Se nós, adultos, criamos cenários esplendorosos durante a leitura, imagine elas. A leitura enriquece o vocabulário, desenvolve habilidades com a escrita e estimula o senso crítico. A leitura também é um caminho aberto para se tornar um escritor.
Bem-estar - Como presidente da Arlec, qual é sua visão sobre o papel da entidade na valorização da literatura, da cultura e dos escritores da nossa região?
Loreni - A presidência da Arlec foi uma surpresa. Jamais cogitei esta função dentro da Academia. Mas, por ter sido secretária e tesoureira em duas gestões, acharam que era a minha vez. Venho de uma área técnica, tornando-me escritora anos depois, mas, por tudo o que li e vivenciei nestes oito anos de acadêmica, penso que devemos cultivar a nossa língua, valorizar a diversidade de criações dentro de nossa academia, uma vez que, por ser uma Academia de Letras e Cultura, temos não apenas escritores e poetas, mas historiadores, pesquisadores, pintores, professores, ceramistas, jornalistas, fotógrafos e musicistas. Há um grande leque de opções. Através de palestras mensais, os acadêmicos mostram as suas habilidades, quando repassamos e preservamos a nossa memória cultural.
Bem-estar - Quais são os principais desafios da instituição?
Loreni - No dia 31 de julho, a Arlec, reconhecida como uma entidade de utilidade pública em 2025, completou 18 anos de existência. Apesar de sermos conservadores e de preservar a nossa tradição, temos que nos adequar às novas normas digitais, e isto se torna um desafio, pois nem todos têm essas habilidades. Temos um site (remodelado atualmente), além das redes sociais no Facebook e no Instagram, administradas pela acadêmica Patrícia Buzzini. Nossa revista acadêmica, denominada Kapiiuara, destinada a artigos e demais criações dos acadêmicos da Arlec, tem periodicidade semestral. Em cada edição, abrimos espaço para convidados de diferentes áreas, para que apresentem as suas criações - sejam escritas ou artes visuais. Temos um concurso de crônicas anual, denominado Concurso de Crônicas Prof. Sérgio Vicente Motta, já em sua 4ª edição, em homenagem a um professor e acadêmico falecido, visando a incentivar a produção de textos literários e, desta forma, revelar novos talentos. Há ainda uma coletânea denominada Arlequina, destinada a artigos jornalísticos e científicos dos acadêmicos. E temos, como em qualquer instituição, desafios e realizações. Unidos, venceremos.
Bem-estar - São José do Rio Preto ocupa um lugar especial em sua história. Como a cidade contribuiu para sua formação pessoal e profissional?
Loreni - Cheguei nesta cidade acolhedora em 1971, e se em minha cidade natal eu tinha o bando de maritacas, aqui eu tinha o de andorinhas e a gentileza de nossas vizinhas. Vim morar com minha avó, uma extensão de minha casa. Aqui fiz o colegial e me formei na Unesp, no curso noturno, e nunca fiquei um dia sem trabalhar. Tornei-me independente financeiramente com minha profissão, tive a minha filha, construí a minha casa, onde plantei dois pés de Oitis e, tempos depois, escrevi meus livros. Entrei com quase dez anos no primário, pois morávamos num sítio, mas posso dizer, como disse um dia Júlio César, que eu ‘vim, vi e venci’, mas de uma maneira demorada e bem diferente.
Bem-estar - A família costuma ser um alicerce na vida de qualquer pessoa. Como seus filhos e netos influenciam sua forma de enxergar a vida, a escrita e o futuro? Depois de tantas realizações, ainda existem sonhos literários ou projetos que você deseja colocar em prática nos próximos anos?
Loreni - Só tenho uma filha e, como já disse, uma neta. Se meus pais foram um estímulo para os meus estudos, uma vez que eram humildes e durante anos precisaram de mim, a filha - e agora a neta, são minha continuidade e me estimulam a pular da cama todas as manhãs com muita energia, apesar da artrose. Família é uma bênção! É o que, sem dúvida, nos move. Gratidão por tê-la. Quantos aos sonhos? Sim, eles existem. E eu os conto para Jesus!
Bem-estar - Se pudesse deixar uma mensagem para as novas gerações sobre o poder da leitura, da escrita e da construção de uma vida com propósito, qual seria?
Loreni - Que não confiem em qualquer perfil nas redes sociais, pois lá encontramos muitos palpiteiros de plantão que querem nos ensinar a viver, mas não conseguem cuidar das próprias vidas. Na internet, grande parte dos conteúdos é rasa e esparsa, e numa velocidade galopante que não há tempo para reflexão. E cuidado com os textos criados pela IA, pois, na hora do vestibular, as provas exigirão autoria própria e, para isto, é bom que se tenha desenvolvido o pensamento crítico que se adquire através de boas leituras. Li nesta semana que quem usa o ChatGPT tem conexão cerebral mais fraca, com menos áreas ativadas e menos esforço cognitivo. Os jovens representam a esperança de um mundo melhor - e já que somos um eterno vir a ser, que eles desenvolvam suas habilidades e as pratiquem em prol do bem, tornando-se cidadãos do mundo e com orgulho de si mesmos.
