Há quase cinco décadas, Cida Caran esteve onde a vida social de Rio Preto acontecia. Festas, inaugurações, encontros, viagens, jantares, homenagens e histórias passaram pelo seu olhar e, muitas vezes, ganharam espaço nas páginas dos jornais, na televisão e, mais recentemente, nas redes sociais.
Com seu jeito expansivo, uma voz que se reconhece de longe e a facilidade de transformar uma conversa em história, Cida construiu uma trajetória que começou em 1978 e continua em movimento. Aos 20 anos de Diário da Região, somam-se passagens por outros jornais, revistas e mais de três décadas de televisão.
Agora, ela quem se coloca diante da própria história. Em 24 de setembro, Cida lançou “Cida Caran: antes e depois de 1978”, livro de memórias publicado pela Raízes Soluções, com coordenação de Célia Volponi. A obra tem textos de Cida e da jornalista Cris Oliveira, prefácio do jornalista Milton Rodrigues e projeto gráfico, diagramação e tratamento de imagens de Claudia Paixão.
O projeto nasceu de um desejo antigo de registrar lembranças que, durante anos, ficaram guardadas na memória. A obra reúne histórias da infância, da família e dos bastidores de quase cinco décadas de colunismo social.
O lançamento gerou uma grande movimentação entre os convidados e também serviu como um primeiro marco para uma data especial: em 2028, Cida completa 50 anos de carreira como colunista social.
É uma história que começou quase por acaso, quando ela morava em Monte Aprazível e já enviava informações para nomes conhecidos do colunismo. O convite para assumir uma coluna veio durante um evento do jornal Dia e Noite, em Rio Preto. A pergunta de Adib Muanis: “Você não quer ser colunista?” — mudou o rumo de sua vida profissional.
Desde então, Cida passou por diferentes redações, criou espaços próprios, acompanhou transformações na sociedade e viu mudar, inclusive, a relação das pessoas com a exposição pública. Se no passado muitos pediam para não ser fotografados, hoje, segundo ela, “todo mundo quer aparecer” na coluna.
Mas talvez a parte mais reveladora de sua trajetória esteja justamente fora das festas e dos holofotes.
Casada com Orville Westin, mãe de Alessandro e Rodrigo, avó de Barbara, Leonardo, Heitor e Matheus e bisavó de Laura e Júlia, Cida olha para a própria trajetória sem falar em aposentadoria. Para ela, continuar trabalhando está diretamente ligado àquilo que entende como sua missão.
Confira abaixo a entrevista:
BE - Cida, você lançou um livro sobre sua trajetória. Em 2028, você completa 50 anos de carreira como colunista social. O lançamento agora é uma espécie de esquenta para essa data. Quando olha para o início dessa história, em 1978, o que vem primeiro à sua memória?
Cida Caran - Eu morava em Monte Aprazível e já conhecia o Amaury Júnior, o César Muniz e o Cássio Bonilha. Mandava muitas notícias para eles. Depois me casei e meu marido se aposentou do Banco do Brasil. Foi quando retornamos para Rio Preto. Estava em um evento de um ano do Dia e Noite, que era comandado pelo Adib Muanis. O Amaury, que tinha sido um dos fundadores, já tinha ido embora. Eles tinham contratado o Nenê Homsi, que começou em janeiro. Foi quando ele me perguntou: “Você não quer ser colunista?”. Eu disse que sim e ele falou que poderia tentar. Foi assim que comecei no Dia e Noite. Depois fui para a Folha de Rio Preto. O Marinho Buzzini, sobrinho do doutor Norberto Buzzini, estava no Diário da Região, convidou para ir para o jornal, e logo em seguida, o Nenê Homsi foi para lá. Tive também uma página semanal, chamada “Os Cowboys do Asfalto”, um semanário do Diário da Região, que era distribuído aos domingos. Eu trabalhava muito com os jovens e promovia concursos, como o dos mais bonitos. Depois passei pela Folha Norte, voltei para a Folha de Rio Preto e, depois, fui para o Diário da Região. Mais tarde, fui para o Bom Dia, onde fiquei menos de um ano. Ao todo, são cerca de 20 anos de Diário, no qual estou até hoje, com colunas às terças, quintas e domingos. Os 20 anos de Diário da Região representam tudo na minha vida. Além disso, há cerca de 36 anos, fui convidada para ter um programa de televisão pelo Sérgio Parada. Eu e o Nenê fazíamos um programa na TV Record. Depois fui para a Band, na TV aberta, e da Band fui para o SBT. Na TV, mantenho meu programa há mais de 30 anos, com exibições no SBT.
BE - O livro “Cida Caran: antes e depois de 1978” realiza um sonho antigo. Por que era tão importante registrar essa história em livro e não deixar essas lembranças apenas na memória?
Cida Caran - Era um sonho meu. Eu queria ter meu livro para contar a minha história. Apesar de ser cidadã honorária rio-pretense, eu não nasci aqui, mas aqui eu vivo com minha família. Queria que as pessoas me conhecessem melhor. Eu me acho uma pessoa popular, despachada, comunicativa, mas queria contar mais. A jornalista Cecília Demian iria escrever o livro, mas ficou doente e faleceu. Depois convidamos a Cris Oliveira, que já era uma parceira antiga. Ela pesquisou mais do que eu. Foi atrás da história do passado. Nós nos reuníamos nos finais de semana para conversar sobre tudo. Foi cerca de um ano de produção e o livro tem 250 páginas. Tem fotos com artistas, da minha família, dos meus filhos, netos e bisnetas. Também fizemos várias fotos em estúdio. Eu comecei no preto e branco.
BE - A obra também resgata sua infância, sua família e sua formação?
Cida Caran - Acho que eu deveria ter feito esse livro uns 20 anos atrás, porque teria lembrado de muito mais coisas. Tem coisas que acabei escrevendo porque fui lembrando. Eu não gosto de me autopromover. Sou uma pessoa que não fica postando foto minha. Mas sou uma pessoa realizada. Consegui ser mãe aos 16 anos, criei meus filhos e fui uma ótima esposa. Fiz Direito, mas nunca exerci a profissão. Com a morte do meu pai, virei agropecuarista e passei a comandar minha propriedade. E aí você pensa: “Agora você vai se aposentar?”. Enquanto Deus me der saúde, vou continuar a missão na Terra.
BE - Você também já publicou outros livros, inclusive de receitas. Como eles entram nessa trajetória?
Cida Caran - Tenho três livros de receitas. Todas as receitas foram doadas e a renda foi destinada a várias entidades. Um dos livros é “As receitas prediletas de Cida Caran”, com receitas feitas e degustadas com muita alegria dentro da casa, com a sua família e amigos. Esse novo livro também tem uma qualidade muito especial. Foi publicado pela Raízes.
BE - Depois de tantos anos registrando a vida social de Rio Preto, existe alguma lembrança ou personagem que tenha ficado especialmente marcada na sua trajetória?
Cida Caran - Tenho várias. Há alguns anos, convidei 20 amigas e levei todas para assistir ao programa da Hebe Camargo. Passamos o final de semana em São Paulo. Ela nos recebeu muito bem e me deu uma entrevista. Eu era fã da Hebe, então aquilo me marcou muito. Também me lembro do José Victor Oliva, ex-marido da Hortência (jogadora de basquete). Organizei e levei cerca de 100 pessoas de Rio Preto para a inauguração do Hopi Hari. Almoçamos com artistas como a Xuxa. Na época, houve uma premiação do Vitor e fomos como um grupo muito organizado.
BE - A sociedade de Rio Preto mudou muito desde 1978. O que mais se transformou na maneira de as pessoas se relacionarem e de viverem a vida social da cidade? E o que continua igual?
Cida Caran - Mudou muita coisa. Antigamente se falava muito em sequestro. Eu ia aos eventos e lidava com pessoas da classe alta, média alta, milionários. Muitas vezes pediam: “Não fotografa”. Isso mudou. Hoje parece que as pessoas querem aparecer mais, principalmente por causa das redes sociais. Na coluna do Diário, todo mundo quer aparecer.
BE - Você acompanhou essas transformações. O que significa para você fazer parte da história de um jornal tão ligado à cidade e continuar contando, por meio da sua coluna, o que acontece em Rio Preto?
Cida Caran - É divulgar de tudo um pouco. Tudo o que chega para mim, eu analiso. Recebo releases, às vezes nem dou conta de ler tudo, mas vejo o que interessa e o que pode entrar na coluna. É uma responsabilidade grande, porque você precisa analisar o que é interessante para o leitor e o que faz sentido para a coluna.
BE - Depois de quase 5 décadas de carreira, o que ainda move a Cida Caran a continuar trabalhando?
Cida Caran - Enquanto Deus me der saúde, vou continuar. Eu ainda tenho muita coisa para fazer e acredito que essa é a minha missão.
