Reconhecido internacionalmente por sua atuação no campo da virologia, o professor Maurício Lacerda Nogueira, docente e diretor-adjunto de pós-graduação da Famerp (Faculdade de Medicina de Rio Preto), figura entre os 107 pesquisadores brasileiros que mais influenciam decisões no mundo, ocupando a 63ª posição em relatório elaborado pela Agência Bori e pela Overton. O levantamento considera menções a estudos científicos em documentos estratégicos, relatórios técnicos e pareceres utilizados por governos, organismos internacionais e organizações da sociedade civil.
Com uma trajetória marcada pelo enfrentamento de grandes epidemias, Maurício teve papel central em pesquisas relacionadas à zika, à Covid-19 e ao desenvolvimento de novas técnicas diagnósticas que contribuíram para a criação da vacina contra a dengue, produzida pelo Instituto Butantan. Seus estudos ajudaram a embasar políticas públicas de saúde, estratégias de vigilância epidemiológica e decisões de órgãos como o Ministério da Saúde, agências regulatórias e instituições multilaterais.
Neste ano, o virologista também estreou no ranking de pesquisadores mais influentes do mundo, elaborado pela Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, e será homenageado pela American Society of Tropical Medicine and Hygiene (ASTMH) com o título de Distinguished International Fellow, uma das mais altas distinções internacionais em medicina tropical e saúde global.
Leia a entrevista a seguir:
BE – O senhor foi recentemente apontado entre os 107 cientistas brasileiros que mais influenciam decisões no mundo. O que esse reconhecimento representa para sua trajetória e para a Famerp?
Maurício Nogueira – Ser incluído entre os 107 cientistas brasileiros que mais influenciam decisões no mundo é, antes de tudo, um reconhecimento profissional e pessoal muito significativo. Mas, acima disso, é um reconhecimento do trabalho de uma equipe inteira que esteve ao meu lado ao longo dos últimos 20 anos. Nada do que construí teria sido possível sem esse grupo extremamente competente e dedicado.
Para a Famerp, esse destaque reforça algo que nós já vivemos no dia a dia: as condições de excelência que a instituição oferece para pesquisa, formação e inovação em saúde. É um sinal de que o que fazemos aqui tem impacto real, ultrapassa fronteiras e contribui diretamente para orientar políticas e decisões importantes.
BE – O senhor também foi homenageado pela ASTMH com o título de Distinguished International Fellow. Como enxerga o peso dessa distinção no contexto das doenças tropicais e da saúde global?
Maurício Nogueira – Ser homenageado pela ASTMH como International Distinguished Fellow – um título concedido a cientistas internacionais com contribuições de destaque em medicina tropical – é extremamente significativo. Para mim, representa o reconhecimento de que nosso trabalho em doenças tropicais ultrapassa fronteiras. E reforça que a ciência produzida no Brasil, na Famerp e no Hospital de Base, tem papel concreto no enfrentamento dos desafios que afetam populações vulneráveis no mundo.
BE – Suas pesquisas já embasaram decisões relacionadas a surtos de zika, dengue e Covid-19. De que maneira transformar ciência em políticas públicas eficazes se tornou parte do seu trabalho?
Maurício Nogueira – Transformar ciência em políticas públicas eficazes acabou se tornando uma extensão natural do meu trabalho. Quando estudamos epidemias a produção científica não pode ficar apenas nos artigos — ela precisa orientar decisões concretas. Ao longo dos anos, percebi que gerar evidências sólidas é apenas a primeira etapa; a segunda é traduzi-las de forma acessível para gestores e autoridades. Esse diálogo constante entre pesquisa e tomada de decisão passou a fazer parte da minha rotina, sempre com o objetivo de que o conhecimento produzido ajude a proteger a população.
BE – Como o senhor avalia a aprovação técnica da Butantan-DV, a primeira vacina de dose única contra dengue no mundo?
Maurício Nogueira – A aprovação técnica da Butantan-DV é um marco importantíssimo para o enfrentamento da dengue. Trata-se da primeira vacina de dose única no mundo, o que facilita enormemente a implementação em larga escala, especialmente em países tropicais. Os resultados mostram que é uma vacina segura, eficaz e adaptada à nossa realidade epidemiológica. É um avanço científico brasileiro com potencial real de reduzir casos, hospitalizações e óbitos – e isso muda o patamar da nossa capacidade de resposta à doença.
BE – Quais são os impactos esperados dessa vacina – em eficácia, adesão e logística – para o Programa Nacional de Imunizações (PNI)?
Maurício Nogueira – A incorporação da vacina ao PNI deve ter impactos muito positivos. Do ponto de vista epidemiológico, esperamos uma redução importante no número de casos e, consequentemente, nas internações e nos custos associados ao tratamento e ao manejo de surtos. A aplicação em dose única favorece a adesão e simplifica a logística, o que é fundamental para um programa nacional tão amplo quanto o PNI.
Mas o impacto mais relevante é o pessoal: diminuir o sofrimento causado pela doença, evitar formas graves e permitir que menos famílias vivam as consequências incapacitantes da dengue.
BE – A produção nacional e a parceria com a empresa chinesa WuXi podem mudar o cenário de abastecimento e cobertura vacinal no país? Em que medida?
Maurício Nogueira – Sim. A produção nacional, aliada à parceria com a WuXi, deve mudar de forma significativa o cenário de abastecimento. Isso permitirá um acesso mais rápido e em maior quantidade, reduzindo a dependência de fornecedores externos e garantindo estabilidade no fornecimento. Com isso, o país poderá ampliar a cobertura vacinal de maneira mais consistente e responder melhor às demandas em períodos de alta transmissão.
BE – O que despertou seu interesse pela virologia e pelas doenças infecciosas? Houve algum momento decisivo que mudou o rumo da sua carreira?
Maurício Nogueira – Meu interesse por virologia começou quando eu era interno de clínica médica no Hospital das Clinicas da UFMG, justamente no período mais chocante da epidemia de AIDS, quando ainda não havia tratamento eficaz. Acompanhar de perto o sofrimento dos pacientes, as mortes sucessivas e a impotência diante da doença foi algo profundamente marcante. Aquela experiência abriu meus olhos para a virologia e mudou o rumo da minha carreira. Percebi que compreender os vírus e desenvolver ferramentas para enfrentá-los poderia transformar realidades – e desde então sigo nesse caminho.
BE – Como é lidar com a pressão de produzir conhecimento que pode impactar diretamente políticas públicas e a vida de milhões de pessoas?
Maurício Nogueira – Eu procuro não focar na pressão de que o conhecimento produzido possa impactar políticas públicas ou a vida de milhões de pessoas. Isso é, na verdade, uma consequência. O que realmente temos de focar é fazer boa ciência: formular boas perguntas, buscar as respostas corretas e, no processo, formar uma nova geração de pesquisadores. Quando o trabalho é feito com rigor e qualidade, o impacto vem naturalmente. A responsabilidade existe, claro, mas ela não deve desviar a atenção do essencial, que é produzir ciência sólida e relevante.
BE – No campo da virologia, há constantes incertezas e mudanças. Qual é o maior desafio de trabalhar em uma área onde o conhecimento evolui tão rapidamente?
Maurício Nogueira – A rápida evolução do conhecimento não é exclusiva da virologia – ela acontece em todas as áreas da ciência. O maior desafio é avaliar cada situação com cuidado, mantendo sempre o diálogo e a interação com outros pesquisadores da área. Ter um grupo muito bom de alunos e colegas trabalhando juntos também é fundamental. Essa troca constante, dentro e fora do laboratório, é o que permite acompanhar as mudanças, interpretar novos dados e ajustar nossas perguntas e caminhos de pesquisa.
BE – Quais foram os momentos de maior orgulho na sua trajetória científica? Há alguma descoberta, estudo ou contribuição que o marcou especialmente?
Maurício Nogueira – Tive muitos momentos importantes ao longo da carreira, mas o dia que realmente me emocionou foi a aprovação da CoronaVac. Trabalhamos intensamente, sob enorme pressão, para que ela fosse avaliada e liberada com segurança e rapidez. Saber que aquele esforço coletivo, coordenado pelo Instituto Butantan, salvou milhares de vidas é algo que me marcou profundamente. Foi, sem dúvida, um dos maiores orgulhos da minha trajetória científica.
BE – Que conselhos o senhor daria a jovens pesquisadores que desejam seguir carreira em virologia?
Maurício Nogueira – É muito difícil dar receitas prontas. Mas, em geral, eu diria que é essencial ter um bom orientador, ser genuinamente curioso e estudar muito. Também é importante conhecer outras pessoas e instituições, ampliar horizontes e buscar diferentes experiências. A carreira em virologia — como em qualquer área da ciência – se constrói com boas perguntas, disciplina e boas conexões.
BE – Olhando para o futuro, quais são seus principais objetivos – científicos, pessoais ou institucionais – para os próximos anos?
Maurício Nogueira – Estou completando 20 anos de Famerp e devo ter algo próximo disso pela frente na instituição. Por isso, vejo este momento como a hora de criar o futuro. Meu principal objetivo é preparar a geração que vai permanecer aqui, mantendo a pesquisa em alto nível pelas próximas décadas.
Quero ampliar nossa capacidade laboratorial – incorporando novas tecnologias – e fortalecer nossas equipes. Essa estrutura não é para mim, é para servir a população de Rio Preto no futuro, permitindo que a instituição continue atuando nas epidemias que virão, assim como estivemos presentes na zika, na Covid-19 e na dengue.
Em resumo, meu foco agora é construir as condições para que a próxima geração faça ciência ainda melhor do que a nossa.
