A trajetória da montanhista Aretha Duarte começou na reciclagem, entre pátios e cooperativas de materiais, como forma de reescrever seu destino. Em 12 meses de dedicação, ela acumulou 130 toneladas de resíduos, financiando o sonho que a levaria ao ponto mais alto do planeta: o Monte Everest.
Cinco anos depois, essa história virou conteúdo no ambiente corporativo, traduzindo aprendizados de planejamento, resiliência, segurança e trabalho em equipe em resultados de negócio, cultura organizacional e ESG. Para Aretha, a verdadeira virada não foi o Everest, mas a disciplina diária que transformou sua vida e a colocou no palco das empresas para inspirar equipes e lideranças.
Em 2021, ao se tornar a primeira mulher negra latino-americana a alcançar o cume, Aretha consolidou o projeto “Da Sucata ao Everest”, promovendo diversidade, inclusão e oportunidades para quem vem da base da pirâmide.
Hoje, ela conecta suas experiências de expedição a desafios corporativos, como gestão de risco, liderança, comunicação, tomada de decisão sob pressão e segurança física e psicológica, sempre reforçando que, na montanha ou na empresa, ninguém sobe sozinho. No último dia 18, Aretha esteve no Sesc Rio Preto, integrando a programação do Sesc Verão, onde participou de um bate-papo inspirador sobre superação, acessibilidade e novos caminhos possíveis no esporte e na vida.
Com iniciativas como o “Todas no Topo” e paredes de escalada sustentáveis em comunidades periféricas, Aretha transforma seu legado em impacto social, mostrando que propósito, resiliência e disciplina podem levar qualquer pessoa ao seu próprio cume.
Natural de Campinas, Aretha mora na periferia, no Jardim Capivari. Aos 41 anos, graduada em Educação Física com especialização em Nutrição Bioquímica e Treinamento Esportivo, ela encontra nos momentos de lazer o equilíbrio entre corpo e mente, apreciando encontros casuais com amigos, conversas, leituras e brincadeiras como bingo.
Leia a entrevista a seguir:
BE – Quais hábitos de saúde física e mental foram essenciais para que você chegasse ao Everest?
Aretha Duarte – Eu treinava com três personal trainers, eram cinco dias na semana de treinamento funcional. Além disso, pedalava, corria e fazia pilates; para melhorar a respiração, também praticava natação. Fiz acompanhamento nutricional e sessões de osteopatia para equilibrar músculos e ossos. Para a saúde mental, contei com o apoio de uma terapeuta e de uma coach, além da minha família e amigos. Toda essa equipe me acompanhou de março de 2020 a março de 2021.
BE – Como o esporte e a escalada impactaram sua autoestima e sua relação com o próprio corpo?
Aretha Duarte – O esporte, especialmente a escalada, me dava muita força e confiança. Eu me sentia viva e preparada para qualquer desafio. O treinamento físico me trouxe segurança, me ajudando a acreditar que eu poderia realizar grandes feitos e superar qualquer obstáculo.
BE – Para quem tem uma rotina corrida, qual pequeno hábito você acredita que pode gerar grandes mudanças no bem-estar?
Aretha Duarte – Para quem tem uma rotina corrida, eu incentivo que busquem 5, 10 ou 15 minutos do dia para praticar algum treinamento físico, seja em casa, na rua, no condomínio, na praça ou na academia mais próxima. O importante é se mexer: pular corda, fazer abdominal, subir e descer escadas, caminhar ao redor do condomínio. Mesmo que sejam apenas 15 minutos, um período curto, o resultado é gigantesco.
BE – Sua história começa muito antes do Everest, no trabalho com a reciclagem. Que aprendizados dessa fase ainda guiam suas decisões hoje?
Aretha Duarte – A minha história começa quando meus pais saíram do Nordeste, em Pernambuco, para tentar uma vida melhor em São Paulo. Foi uma jornada que exigiu muita coragem, chegando aqui sem ter onde morar, mas, ainda assim, acreditando que poderiam transformar suas vidas. Sou a caçula de três filhos, e eu e meus irmãos tivemos uma infância muito desafiadora em termos de infraestrutura. Morávamos em um barraco de madeira que não tinha água, energia elétrica nem banheiro. Apesar disso, meus pais sempre nos fizeram perceber nossa potência, nos incentivavam a brincar, estudar e buscar conhecimento e experiências para crescer e nos desenvolver.
A reciclagem foi uma atividade que me acompanha desde a infância. Aprendi que, embora simples, ela tinha grande potencial: resíduos que existiam em todos os cantos poderiam ser transformados em novos materiais e, principalmente, gerar renda para quem atuava nessa área.
O que me guia é o impacto que minhas ações podem ter na sociedade. Se percebo que o impacto é positivo, sigo em frente. Quando vejo que algo é honesto, justo e ético, eu faço.
BE – Você costuma dizer que sua maior virada não foi o topo da montanha, mas a disciplina diária. Como essa disciplina se constrói na prática?
Aretha Duarte – Com constância, seja no exercício físico ou na saúde mental. O importante é seguir, manter a constância. Lembro que escrevia muito como forma de organizar as ideias, compreender para onde estava indo e perceber as forças da minha jornada.
BE – Em momentos de extremo cansaço físico e emocional, o que te fez continuar e não desistir?
Aretha Duarte – Nesses momentos, eu me permitia descansar, parar e decidir que, assim que recuperasse minhas energias, seguiria em frente e avançaria. Eu podia escolher não seguir adiante e arriscar um acidente ou a vida, ou simplesmente parar, descansar e depois continuar essa rota. Quando percebemos esse cansaço extremo, é fundamental permitir-se descansar. O descanso pode trazer mais harmonia, reequilíbrio e a oportunidade de se reenergizar para seguir adiante.
BE – O projeto “Todas no Topo”, previsto para iniciar, em março nasce com um olhar especial para mulheres. Que barreiras você espera ajudar a derrubar?
Aretha Duarte – O projeto “Todas no Topo” nasce com o intuito de fortalecer a confiança das mulheres e fazê-las perceber e reconhecer seu poder interno, seu potencial de organização, disciplina, melhores resultados, interação e sororidade. Mas também busca desenvolver uma liderança transformadora, que enxerga o mundo de forma diferente: mais carismática, solidária e coletiva. O “Todas no Topo” potencializa a capacidade socioemocional das mulheres, fazendo com que voltem potentes e empoderadas para gerar transformação por onde passam, seja como líderes em suas casas, nas empresas em que atuam ou na sociedade. O objetivo é que elas reconheçam sua força e coloquem em prática seu poder para alcançarmos resultados melhores para o planeta.
BE – Como sua experiência em expedições extremas se conecta com os desafios do mundo corporativo?
Aretha Duarte – As empresas também enfrentam grandes desafios, que aumentam a cada ano. Com isso, aprendi que é necessário ter planejamento e disciplina constantemente, saber liderar a equipe e delegar funções. Por mais que a escalada seja individual, ninguém sobe sozinho.
BE – O que as empresas podem aprender com a lógica da montanha sobre segurança, comunicação e liderança?
Aretha Duarte – As empresas precisam compreender, assim como na lógica da montanha, que segurança, comunicação e liderança são fatores indispensáveis para o sucesso da escalada. A segurança é prioridade, porque não se pode alcançar o topo ou a meta da empresa a qualquer custo.
É necessário seguir um princípio, um protocolo que respeite a dignidade do ser humano. Além disso, a comunicação precisa ser transparente, clara e adequada às diversas linguagens do grupo, porque todo grupo, seja uma expedição ou uma equipe empresarial, é diverso.
BE – Seu projeto “Da Sucata ao Everest” virou um exemplo prático de ESG (sigla em inglês Environmental Social Governance, referente às empresas que buscam equilibrar lucro, impacto social positivo e responsabilidade ambiental). Como transformar discurso em ação concreta?
Aretha Duarte – “Sucata Everest” demonstrou o quanto a visão ESG é importante, de modo pessoal, social, coletivo e até empresarial. É possível garantir circularidade por meio da reciclagem e alcançar melhores resultados, pensando em sustentabilidade e na longevidade desses resultados. Ao focar em sustentabilidade, reconhecemos não apenas o impacto ambiental, mas também o social.
Minha jornada rumo ao Everest, baseada na reciclagem e na sucata, demonstrou que a ação concreta gera bons resultados, que podem ser replicados e, acima de tudo, servirem de exemplo para que todos ao redor compreendam sua responsabilidade pela preservação, pelo futuro do planeta, das empresas e das pessoas.
BE – Qual a importância da representatividade quando falamos de liderança, especialmente feminina e negra?
Aretha Duarte – A representatividade negra é fundamental para que essas meninas se sintam pertencentes ao grupo, garantindo diversidade e inclusão. É impossível que um líder homem e branco compreenda plenamente os desafios de uma mulher negra.
BE – Qual é o próximo “Everest” da Aretha Duarte – pessoal ou coletivo?
Aretha Duarte – Sem dúvidas, é promover paredes de escalada nas periferias do Brasil, levando esse esporte, que já é olímpico, para a vida das crianças, para que reconheçam a modalidade como uma opção de cuidado com a saúde e a mente e, quem sabe, até para competir.
BE – Quando você olha para trás, o que mais te orgulha na sua caminhada?
Aretha Duarte – O que mais me orgulha é perceber que enfrentei muitos desafios desde a infância, mas nunca permiti que eles me causassem medo suficiente para me paralisar. É claro que senti medo, vulnerabilidades e, em certos momentos, dúvidas. Mas sempre busquei recursos, conhecimento, técnicas, pessoas e uma rede de apoio que me fortalecesse e me impulsionasse a seguir em frente, mesmo sem ter certeza do resultado. Meu orgulho está em perceber que fui resiliente. Esses princípios fizeram parte de toda a minha jornada, e tenho orgulho de saber que, a cada decisão, ocupei um espaço melhor do que o anterior.
