Alceu Sestini construiu uma trajetória marcada pela convivência entre diferentes mundos: o serviço público, a diplomacia, o empreendedorismo e o terceiro setor. Iniciou sua carreira no serviço público federal, com passagens pelo Ministério da Fazenda, pela Câmara dos Deputados e pelo Ministério das Relações Exteriores, atuando também em embaixadas brasileiras em Caracas, Beirute e Manila. Experiências que moldaram sua visão sobre o Estado, a política internacional e a natureza humana.
Formado em Direito pela Universidade de Brasília (UnB), com habilitação em Direito Financeiro e Tributário, e MBA em Gestão de Saúde pela Fundação Getulio Vargas (FGV). Atualmente, mantém o vínculo diplomático como Agente Consular Honorário da República da Itália em Rio Preto, função que dialoga tanto com suas origens familiares quanto com sua vocação para o serviço público.
Paralelamente, atua como empresário em áreas diversas, como seguros, benefícios, energia renovável e agronegócio, sempre guiado por princípios como coragem, trabalho intenso e respeito às instituições.
Casado há 34 anos com Carmen Z. Chaves Sestini, pedagoga, especialista em Recursos Humanos e terapeuta familiar, é pai de três filhos, Thiago, Giulia e Maria Lívia, e avô de três netos. Nos raros momentos de lazer, dedica-se à leitura, com especial interesse por história, geografia, filosofia e religião. Espírita cristão, mantém uma rotina ativa no centro espírita e em ações voltadas à família e à sociedade.
Leia a entrevista a seguir:
BE – Quais foram os principais aprendizados de sua experiência no serviço público federal nos Ministérios da Fazenda e das Relações Exteriores, e na Câmara dos Deputados?
Alceu Sestini – Aprendi, acima de tudo, a respeitar o interesse público. Reconhecer a importância das instituições do Estado e valorizá-las. Além de servidor público federal, fui presidente da ASOF – Associação Nacional dos Oficiais de Chancelaria do Serviço Exterior Brasileiro, oportunidade em que trabalhei pela defesa das carreiras típicas de Estado e, por conseguinte, na defesa do Estado brasileiro. Nessa militância, combati a sobreposição de interesses privados ao interesse público. Assim, atualmente como presidente da FBTP (Fundação Benedicta Terra Pimentel), valorizo e coopero com os entes públicos que fiscalizam e supervisionam as nossas atividades. Eles são nossos aliados na busca do interesse comum.
BE – Trabalhar em embaixadas brasileiras no exterior (Caracas, Beirute e Manila) certamente foi marcante. Pode compartilhar alguma experiência internacional que tenha impactado profundamente sua forma de ver o mundo?
Alceu Sestini – A atuação no Serviço Exterior me ajudou a entender que todo ser humano, independentemente de etnia, religião ou situação socioeconômica, anseia por paz, segurança e estabilidade. Nós somos muito mais parecidos do que diferentes. O problema é que gostamos de valorizar as diferenças. Eu andei por zonas de guerra, conversei com pessoas de lados opostos e vi que a ignomínia da guerra é o resultado da ambição de alguns poucos, paga com a dor e o sofrimento de muitos. Certa vez, eu andava pelo Vale do Bekaa, no Líbano. Estávamos no veículo da Embaixada brasileira quando fomos surpreendidos por um comando sírio, que, na época, ocupava militarmente a região. Eles estavam fortemente armados, com metralhadoras, lança-foguetes e tanques de guerra. Nosso guia foi chamado para prestar esclarecimentos na tenda de campanha armada à beira da estrada. Ficamos muito apreensivos dentro do carro. Depois de quinze minutos de ansiedade, nosso guia saiu da tenda rindo muito e dando tapinhas nas costas do soldado sírio. Eles queriam saber sobre a beleza das mulheres brasileiras, discutiram sobre futebol, falaram das nossas praias. Disseram que queriam conhecer o Brasil, que, para eles, era o paraíso na Terra. Eram apenas jovens curiosos, exatamente como já fomos um dia.
BE – O senhor tomou a decisão de deixar a estabilidade do serviço público para empreender. O que foi mais desafiador nesse processo de transição para o mundo dos negócios?
Alceu Sestini – O fato é que eu sempre tive espírito empreendedor. Como servidor público, fui empreendedor. Queria muito estar em uma atividade que coadunasse com a minha personalidade. Mas os obstáculos são muitos e, para quem vem de um ambiente cuja principal característica é a segurança, as dificuldades naturais às vezes ganham contornos dramáticos. Mas era o que eu queria, e queria muito. Sou obstinado na perseguição dos meus objetivos, e essa determinação foi fundamental. A minha principal dificuldade foi me ver sozinho. No serviço público, não fazemos nada sozinhos. Tudo é uma construção coletiva. Na iniciativa privada, somos nós e o mundo. Se vencemos, nos rejubilamos, mas, quando vêm as dificuldades, somos somente nós mesmos e a nossa família. Vale ressaltar, porém, que não abandonei imediatamente o Serviço Público; pedi licença para trato de interesses particulares (licença sem vencimentos) por um bom período. Se as coisas não tivessem dado certo, eu teria como voltar.
BE – Ao fundar empresas em áreas tão diversas como seguros, benefícios, energia renovável e agronegócio, que princípios orientaram suas escolhas de investimento e atuação?
Alceu Sestini – Eu gostaria de dizer que foram escolhas técnicas baseadas em estudos de mercado, mas definitivamente não foram. Em primeiro lugar, foram as oportunidades que se mostraram. Para se ter uma ideia, quando montei a minha corretora de seguros, eu não tinha nenhuma experiência no setor. Mas a oportunidade estava lá, e não me faltou coragem e disposição. Sempre gostei de trabalhar. Normalmente trabalho 12 horas por dia, às vezes mais. Então posso dizer que meus princípios são: enxergar as oportunidades, não ter medo de arriscar, trabalhar muito e nunca desistir.
BE – Em sua visão, quais são as competências que um servidor público desenvolve que podem ser especialmente valiosas no empreendedorismo?
Alceu Sestini – O principal é aquela coisa de colocar tudo no papel, preto no branco. Agir com organização e método. Prestar atenção nos detalhes e entender que o Estado existe e deve ser respeitado no nosso planejamento.
BE – Como surgiu a oportunidade de atuar como Agente Consular Honorário da República da Itália em Rio Preto e o que essa função representa para o senhor?
Alceu Sestini – Eu era vice-presidente da ACIRP quando houve o jubilamento (afastamento por idade) do agente consular anterior, José Paschoal Costantini. Como ele havia sido presidente da ACIRP, consultou a entidade sobre a existência de algum cidadão italiano com interesse em representar os interesses da República da Itália em Rio Preto e região. Eu me interessei e, como preenchia os requisitos, acabei postulando a posição. De minha parte, serviu como um duplo resgate. De um lado, uma homenagem às minhas origens italianas, tão ricas em histórias familiares; de outro, o prazer de voltar a atuar no Serviço Diplomático, outra paixão que vem desde a infância.
BE – Pode nos contar um pouco sobre as principais atividades e responsabilidades dessa função consular?
Alceu Sestini – Minha função é apoiar o cidadão italiano dentro da minha jurisdição e promover a cultura e os negócios entre o Brasil e a Itália na região, além, evidentemente, de representar o governo da Itália em todas as ocasiões em que o Consulado Geral de São Paulo assim requisitar.
BE – Sua atuação no terceiro setor é extensa (APAE, USE, Casa do Caminho, Hospital Bezerra de Menezes, Creche Irmã Estelita, entre outros). Como essa atuação social se conecta com sua formação e experiências anteriores?
Alceu Sestini – Eu sempre digo que o curso de Direito nos prepara para a vida. Ser advogado nos permite conviver com muitos mundos ao mesmo tempo. Do serviço público, eu trouxe o respeito pelo Estado, o apreço pela governança e a disciplina. Da iniciativa privada, a coragem, a vontade de realizar e a humildade de reconhecer os erros. Mas, como já disse, a atuação social está diretamente vinculada aos meus valores, e eles são onipresentes em tudo o que faço.
BE – A Fundação Benedicta Terra Pimentel (FBTP) desenvolve projetos concretos de acolhimento e educação. Qual foi o momento mais emocionante ou significativo que o senhor viveu à frente da Fundação?
Alceu Sestini – Há muitos momentos marcantes, porque trabalhamos com vidas, histórias e dores muito profundas. Mas um dos episódios mais emocionantes que vivi à frente da Fundação foi o acolhimento de uma menina muito pequena, estrangeira, cuja mãe havia sido presa no Brasil. Ela estava sozinha, sem qualquer referência familiar no país, e corria o risco de perder completamente seus vínculos de origem. Mobilizamos nossa equipe técnica, nossa rede de contatos e trabalhamos incansavelmente para localizar os avós maternos no país de origem dessa criança. Conseguimos encontrá-los, regularizar toda a situação legal e viabilizar o retorno seguro da menina para sua família. Ver aquela criança reencontrar os avós, perceber que sua história não terminaria em abandono, foi algo que tocou profundamente a todos nós. Esse episódio resume o sentido do nosso trabalho: acolher não é apenas proteger temporariamente, é devolver dignidade, identidade e futuro. São momentos como esse que nos mostram que todo esforço, toda luta diária, realmente vale a pena.
BE – Com uma carreira multifacetada, o que o senhor considera como seu maior legado até o momento?
Alceu Sestini – Certa vez, encontrei uma amiga que não via há mais de vinte anos, e ela me falou algo que responde a esta questão. Ela disse: “Alceu, quando você era adolescente, você me disse que queria ser diplomata, empresário e fazendeiro. Na época, eu achei que você era um sonhador que nunca realizaria nada. Hoje vejo que você alcançou seus objetivos.” Eu acho que minha história de vida mostra que, na vida, todo sonho vale a pena e pode ser realizado, desde que seja idealizado com amor, executado com muita persistência e resiliência e que nunca nos falte fé em Deus.
BE – Quais são os próximos projetos ou iniciativas que o senhor pretende desenvolver, tanto no consulado quanto nas áreas empresarial e social?
Alceu Sestini – Na área social, pretendo reforçar todas as ações que beneficiem crianças e adolescentes, gerando oportunidades, acolhimento e diminuindo danos. Neste ano, reativaremos nosso projeto de contraturno escolar, retirando as crianças das ruas e trazendo-as para a nossa sede, onde, além de múltiplas atividades, serão valorizadas e cuidadas com amor. Nas nossas empresas, os desafios são muitos. Pretendo dinamizar a presença da Benevix na região de Rio Preto, já que, nos últimos anos, crescemos muito fora da nossa região. No agronegócio, estamos muito empenhados na integração lavoura/pecuária irrigada, por entendermos ser uma prática altamente sustentável. Na área de energia, pretendemos dinamizar ainda mais a participação da nossa empresa na produção e comercialização de energia solar no Estado do Mato Grosso do Sul. Na agência consular, seguimos a orientação do Consulado Geral da Itália em São Paulo, que nos estimula a incrementar os negócios entre a Itália e a nossa região, reforçar os nossos laços culturais e atender os concidadãos italianos na nossa área de atuação.
BE – Como o senhor imagina as relações entre o Brasil e a Itália nos próximos anos, especialmente do ponto de vista consular e comunitário?
Alceu Sestini – Toda a atuação da Agência Consular em Rio Preto está adstrita ao cumprimento das orientações do Consulado Geral da Itália em São Paulo e, no tocante às questões diplomáticas, à Embaixada da Itália em Brasília. De qualquer forma, posso afirmar que, nos próximos anos, como nos anteriores, a relação entre os nossos povos será intensa. O Brasil tem a segunda maior população de cidadãos italianos residentes no exterior; na nossa região, 49% da população é descendente de italianos; existe um número representativo de brasileiros vivendo na Itália. Culturalmente, estamos vinculados nas artes, na gastronomia, nos costumes e até mesmo nas expressões idiomáticas. Somos povos irmãos, e isso sempre será assim.
