Carlota Menezes Devasio transformou uma feijoada entre amigos em um dos carnavais de rua mais afetivos do interior paulista. À frente do Bloco Toca da Carlota, ela conduz muito mais do que uma festa: criou um espaço de encontro, acolhimento e pertencimento, onde crianças, famílias, músicos e voluntários dividem a mesma rua e o mesmo propósito de celebrar a vida. O que começou de forma íntima, quase caseira, cresceu, ganhou corpo e hoje mobiliza multidões em Engenheiro Schmitt, distrito de São José do Rio Preto, sem abrir mão da essência comunitária que ela faz questão de preservar.
Natural de Rio Branco, no Acre, Carlota vive há 21 anos em Rio Preto, cidade que escolheu para construir família, carreira e raízes. Casada há duas décadas com Aldo César de Vázio, com quem também divide os sonhos do bloco, tem duas enteadas, Thaís Leucci de Vázio e Tatiana Leucci de Vázio. Formada em Economia e Serviço Social, acumula nove pós-graduações e comanda um grupo empresarial do setor metalúrgico que está entre os principais fabricantes de lixeiras em aço inox do país.
Entre a gestão das empresas e o hábito constante de estudar, foi no Carnaval que ela encontrou uma forma de colocar em prática aquilo em que mais acredita: servir pessoas. “Amo estudar, amo ler, amo conhecer, saber todas as coisas que estão ao meu redor.” Para Carlota, o bloco é projeto social, exercício de liderança e ato de cuidado coletivo, um movimento feito, como ela mesma define, “de gente para gente”.
Leia a entrevista a seguir:
BE – Para começar, quem é a Carlota fora do Carnaval? Como você se descreveria para quem ainda não a conhece?
Carlota Menezes – Antes do bloco, eu sou gente. Sou uma mulher intensa, criativa, apaixonada. Gosto de transformar tudo em experiência. Eu me descreveria como alguém de coração grande; escuto muito isso das pessoas. Sou inquieta, não consigo fazer nada mais ou menos: ou abraço por inteiro, ou nem começo. Fora do Carnaval, sou empreendedora, escritora — já publiquei um livro e estou escrevendo outro e comunicadora ao máximo. Gosto de conversar, de trocar, de me expressar. Também sou estrategista: gosto de analisar tudo, prever problemas, entender caminhos. Talvez isso venha da empresa. Valorizo muito a amizade e a família, tenho um olhar muito voltado para o outro. Quando fiz Serviço Social, foi pensando nisso: o que posso fazer da minha vida pelo outro também? Porque o que eu faço pelo outro também me engrandece.
BE – Como nasceu a ideia do Bloco Toca da Carlota?
Carlota Menezes – O bloco nasceu primeiro na mente do meu marido, quando ele tocou no Cordão da Bola Preta e em outros blocos do Rio de Janeiro. Essa ideia ficou guardada com ele por muito tempo. Quando nos conhecemos e percebemos que o Carnaval era algo muito importante para nós, começamos a viajar para conhecer blocos de Recife e do Rio de Janeiro. Em Ribeirão Preto, ele conheceu os Alegrões, um bloco de rua, e nós nos apaixonamos pela forma como eles faziam. Resolvemos fazer algo parecido na nossa chácara. No Carnaval, fazíamos uma feijoada com os amigos. Depois de um ou dois anos, eles falaram: “Vamos levar isso para a rua”. E fomos. No começo, eram só amigos e família. O Toca da Carlota nasceu desse encontro íntimo, de música e vontade de celebrar a vida. O clique veio quando eu percebi que não era só uma festa, era um sentimento coletivo pedindo espaço. A rua chamava as pessoas. O bloco nasceu do coração, do desejo de criar um Carnaval acolhedor, verdadeiro, feito de gente para gente.
BE – O bloco acontece em Engenheiro Schmitt, um distrito com forte identidade comunitária. O que esse lugar representa para você e para o bloco?
Carlota Menezes – Nossa empresa funciona em Schmitt, e 90% dos nossos funcionários moram lá. Fazer o bloco ali foi uma escolha afetiva, não política. É um lugar onde as pessoas se conhecem, se ajudam, se reconhecem. É mostrar que a cultura também nasce nos distritos, que a alegria não pertence só aos grandes centros ou aos bairros mais valorizados de Rio Preto.
BE – Organizar um bloco de Carnaval não é tarefa fácil. Quais são os maiores desafios ao longo do processo?
Carlota Menezes – Somos bem parecidos com as escolas de samba: termina um Carnaval e já começamos o outro. Passamos o ano inteiro conversando com patrocinadores e organizando tudo. O maior desafio é sustentar o sonho sem perder a essência. Já tive patrocinadores querendo colocar sensualidade, mulheres peladas, e eu disse não. Essa não é a nossa essência. A essência é a criança, é a família.
BE – E, por outro lado, o que mais te emociona ou te dá orgulho quando o bloco finalmente sai às ruas?
Carlota Menezes – O que mais me emociona é ver o bloco vivo: crianças, famílias, idosos, jovens, todo mundo junto, sorrindo, cantando, se reconhecendo naquele espaço. Não há uma pessoa sem sorrir. É ver o brilho nos olhos de quem participa, de quem ajuda a construir. Nossos músicos são incríveis. Eu amo cada um infinitamente.
BE – Ao longo dos anos, o Toca da Carlota criou uma identidade própria. Quais valores ou mensagens você faz questão de transmitir através do bloco?
Carlota Menezes – O Toca da Carlota carrega valores muito claros: acolhimento, respeito, diversidade, sustentabilidade, alegria e pertencimento. É um bloco para crianças, adultos e famílias. Um espaço onde todo mundo se sente parte.
BE – Falando um pouco da sua vida profissional, com o que você trabalha atualmente e como essa experiência contribui para a organização do bloco?
Carlota Menezes – Minha experiência como empresária me ajudou a organizar, estruturar e desenvolver o bloco com estratégia. Mas, na verdade, é a minha formação como assistente social que me fez transformar isso em projeto, junto com meu marido, colocar no papel e falar: “Vamos fazer? Vamos”. Agora, planejamos criar um projeto social. Temos um grande sonho que a gente vê, a cada dia, se realizando.
BE – Você sente que o Carnaval e o bloco influenciaram sua vida pessoal? O que mudou em você depois que se tornou organizadora?
Carlota Menezes – Mudou tudo. O bloco me tornou mais forte, mais sensível e mais consciente da responsabilidade de cuidar das pessoas e dos sonhos de todos os envolvidos. Aprendi que liderança é servir. Liderar não é mandar, é servir bem. O Carnaval também me ensinou sobre entrega, limites, fé e o poder das conexões.
BE – Em meio a tantas responsabilidades, como você equilibra vida pessoal, trabalho e Carnaval?
Carlota Menezes – Eu acho que eu não tenho esse equilíbrio. Aprendi a respeitar meu tempo e a pedir ajuda. Isso é essencial. Se você reconhece a sua fraqueza e pede ajuda, isso é surreal. É imensurável.
BE – O bloco envolve muita gente: músicos, apoiadores, foliões. O que significa para você trabalhar de forma coletiva?
Carlota Menezes – Trabalhar em equipe é essencial, não só para o bloco, mas para todas as empresas. Nada disso existiria se fosse somente eu. Não existe nada sozinho. Cada músico, cada apoiador, cada voluntário, cada folião constrói o Bloco Toca da Carlota. Para mim, é um exercício diário de humildade e gratidão. O coletivo ensina, sustenta e amplia. O bloco é uma soma de afetos, tenha certeza disso.
BE – Quais foram os momentos mais marcantes da história do Bloco Toca da Carlota até hoje?
Carlota Menezes – O momento mais marcante foi este ano, antes mesmo do Carnaval, com a doença do meu marido, Aldo. Ele cuidava de toda a parte burocrática, captação de recursos e organização. De repente, ficou internado, e a gente sem saber como seria. Foi um ano muito difícil, traumatizante. Por isso, eu estava tão radiante no dia do bloco. Foi uma comemoração. A chuva não veio para estragar; veio para lavar, limpar nossa alma, renovar tudo o que a gente viveu.
BE – Quais são seus sonhos e planos, tanto para o bloco quanto para sua vida pessoal e profissional?
Carlota Menezes – Meu maior sonho é que o bloco jamais perca sua essência. Talvez um dia eu e meu marido não estejamos mais aqui, mas alguém vai continuar. Quero que permaneçam o amor, a coragem, o respeito e a verdade. Também sonho que ele se torne símbolo do Carnaval de rua do interior, que as pessoas olhem para Rio Preto como olham para Recife e falem: “Nossa, existe uma cidade chamada São José do Rio Preto, ali no distrito de Engenheiro Schmitt, que é fantástica, que vem gente do mundo todo para passar o Carnaval”. Há dez anos fazemos o bloco sempre uma semana antes do Carnaval e vamos continuar assim. Quero que cada vez mais gente venha viver essa experiência com a gente.
