Aos quase 80 anos, o professor e escritor Gentil de Faria reúne uma trajetória que se confunde com a própria história da educação e dos estudos literários no Brasil. Com quase seis décadas ininterruptas de docência, passagem por universidades brasileiras e estrangeiras de referência, domínio de múltiplos idiomas e uma produção intelectual consistente, ele construiu uma carreira marcada pela curiosidade permanente, pelo rigor acadêmico e pela defesa do conhecimento como valor essencial ao longo da vida.
Autor de dez livros, e com um novo título a caminho, Gentil de Faria transita com naturalidade entre a literatura comparada, o direito, a gestão educacional e o debate público, sempre com o olhar atento às transformações do mundo contemporâneo. Graduado em Letras, com mestrado e doutorado pela USP e livre-docência pela Unesp, ele também é advogado, especializado em Direito Constitucional Comparado, formado pela USP, e especialista em Administração Pública pela Fundação Getúlio Vargas (FGV).
Nesta entrevista, Faria revisita momentos decisivos de sua formação, reflete sobre o papel do intelectual em tempos de polarização e excesso de informação, e compartilha sua visão sobre leitura, educação e maturidade intelectual. Mais do que um balanço de carreira, a conversa revela um pensador em plena atividade, para quem ensinar, pesquisar e dialogar com as novas gerações não são apenas ofícios, mas uma forma de estar no mundo e de seguir aprendendo até o fim. Confira abaixo a entrevista.
BE - Professor, quando o senhor olha para sua trajetória, mais de 50 anos de docência, viagens acadêmicas pelo mundo e centenas de trabalhos publicados, qual imagem ou momento o define como intelectual e educador?
Gentil de Faria - Em agosto próximo, completarei 59 anos ininterruptos de docência, pois comecei em agosto de 1967, quando eu tinha 21 anos e havia passado no vestibular para o curso de Letras da USP. Assim, mal entrado na Faculdade, fui convidado para dar aulas de francês num colégio estadual da Capital. Nesses anos todos, passei por várias universidades do Brasil e do exterior, adquirindo uma extraordinária bagagem de conhecimentos, sobretudo em línguas (consigo ler em 12 idiomas) e em Direito, após o curso na Faculdade de Direito da USP, concluído em 1980. Nessas andanças acadêmicas, aproveitei a oportunidade para fazer três pós-doutorados no exterior: Universidade Konstanz, 1981, Universidade Stanford, 2011 e Harvard, 2014. O intenso contato adquirido no exterior me proporcionou sólida bagagem acadêmica e intensa produção científica. Já escrevi dez livros, e o 11º está a caminho para ser publicado no primeiro semestre de 2027. Estamos vivendo um momento muito difícil de extremidades políticas. Fujo da dicotomia esquerda x direita, pois ambas estão contaminadas por radicalismos. Em termo de Brasil, faço parte do grupo "nem, nem": isto é, não sou nem Lula, nem Bolsonaro. Quero caminhar equidistante desses extremistas fanáticos. Desejo trilhar uma terceira via que nos levará a uma democracia social plena.
BE - O que o mantém ativo e ainda motivado a ensinar, orientar e pesquisar mesmo após a aposentadoria formal? Há um motor interno que nunca se apaga?
Faria - Estou aposentado da Unesp desde 1998, isto é, há 27 anos. Mas continuo ministrando disciplinas em dois cursos de pós-graduação, e orientando 14 alunos. A Capes recomenda o número seis para cada docente; eu tenho quase o triplo. É gratificante constatar que meus orientandos vêm de várias partes do país como: Barretos, Ribeirão Preto, Rio Claro, São Paulo, São Luís e Boa Vista. Desde meu início no Ibilce em 1986, já orientei cerca de 50 trabalhos de mestrado, doutorado e pós-doutorado. Minha satisfação é maior ainda quando viajo para as inúmeras palestras e lá sempre encontro um orientando trabalhando na Universidade. Assim, só estou aposentado no papel. Sinto que sou ainda muito útil à Universidade e quero continuar nela até o final dos meus dias. Meus modelos de vida são o arquiteto Oscar Niemeyer, que morreu na ativa cinco dias antes de completar 105 anos, e o professor Antonio Candido, meu orientador, falecido poucos dias antes dos 99 anos de vida. Veja que eu ainda tenho muito tempo pela frente: chego aos 80 em março próximo.
BE - O senhor transitou por universidades brasileiras, americanas, europeias e asiáticas. O que aprendeu sobre educação ao olhar o mundo de fora?
Faria - Sim, diversas. Várias nos Estados Unidos, Europa, Ásia e América Latina. Olhar nosso país de uma perspectiva do exterior é fascinante. Essa experiência faz com que percamos nossa visão de "intelectual de província", isto é, aquele cheio de si, numa vaidade ingênua. Fora, você convive com os maiores especialistas de sua área; gente humilde e competente, que tem uma visão mundo ampla, longe da mediocridade da aldeia.
BE - A Literatura Comparada é o eixo central do seu trabalho. Para o leitor comum, como explicaria o que a torna tão fascinante?
Faria - Literatura comparada é uma área de estudos já bastante antiga nas grandes universidades estrangeiras. No Brasil, seu estudo começa timidamente na década 1960, com a iniciativa de Antonio Candido. O primeiro a ministrá-la na USP em 1970. Tive o privilégio de ser um dos alunos desse curso. Desde então, o comparatismo literário vive introjetado nas minhas preocupações acadêmicas. O fascínio da literatura comparada está no estudo das múltiplas relações da literatura com as outras áreas do saber. O estudioso foge da visão localista, estreita. Nesse sentido, abri uma grande perspectiva no estudo das relações entre direito e literatura, além, é claro, das comparações entre autores de diferentes línguas.
BE - Quais autores, brasileiros ou estrangeiros, mais o marcaram e continuam lhe acompanhando ao longo da vida?
Faria - Entre os brasileiros, destaco a figura de Machado de Assis, que é sempre meu autor nas palestras no exterior. O autor brasileiro levou um século para ser conhecido fora do Brasil. Sua projeção internacional surge avassaladora a partir de 2008, primeiro centenário da sua morte, com a sua descoberta pelos grandes críticos estrangeiros. Hoje ele é estudado junto aos maiores escritores da literatura ocidental. Do lado dos estrangeiros, estudo muito Shakespeare, o maior de todos, Dostoiévski e Kafka. Esses quatro preenchem a contento minhas dúvidas existenciais. Obviamente, leio vários outros, mas sempre volto a um desses quatro.
BE - O senhor ocupou cargos públicos e esteve à frente da Secretaria de Educação de Rio Preto, contribuindo para prêmios e políticas importantes. O que aquela experiência lhe ensinou sobre gestão e o impacto real da educação na sociedade?
Faria - Certa vez, concorrendo a uma vaga de palestrante numa universidade americana, fui surpreendido com uma pergunta de um dos examinadores: "Qual foi sua melhor (best achievement) realização na vida?" Demonstrando segurança, respondi de pronto: "Foi a minha atuação como secretário municipal de educação da minha cidade". De fato, a implantação da municipalização do ensino em Rio Preto foi o marco maior da minha gestão frente aquela pasta. Os benefícios são sentidos até hoje. Outro feito do qual me orgulho bastante é minha atividade de orientador, pois acompanho o aluno bem perto na sua caminhada rumo ao grau acadêmico.
BE - Vivemos um tempo de excesso de informação, mas nem sempre de profundidade. Como formar leitores críticos hoje? Qual o papel do professor nessa missão?
Faria - O papel do professor ainda continua fundamental. Ele é importantíssimo na formação da criança e do jovem. Para tanto, ele precisa também se informar, fazer cursos, se especializar. Deve sempre estar a par das novidades tecnológicas e não desdenhar delas, como no momento, muitos fazem do uso da Inteligência Artificial, uma excelente ferramenta que auxilia bastante na pesquisa. Lembro aqui o ocorrido com grandes personalidades que menosprezaram os avanços tecnológicos do seu tempo: Charles Chaplin dizia que nunca iria produzir um filme sonoro (preferia os mudos) e nem os coloridos (adorava os em branco e preto). Tempos mais tarde, ele passou a fazer também filmes sonoros e coloridos. Nosso grande ator shakespeariano Paulo Autran falava mal das novelas de televisão e dizia que nunca iria trabalhar nelas, pois o teatro era muito mais importante. Pouco tempo depois, ele foi seduzido pela rede Globo e atuou em algumas novelas de enorme sucesso de público. A partir das novelas de televisão, ele atingiu a grande audiência, que passou a lotar os teatros. Tenho relatos de inúmeros escritores que se recusavam a usar o computador para escrever. Quase todos, algum tempo depois, passaram a desfrutar da comodidade que essa maquininha eletrônica proporciona.
BE - Há algo que ainda deseja realizar, um livro, um projeto, um estudo que sente que ainda “chama” o seu nome?
Faria - Como já disse, estou preparando meu 11º livro. Será uma coletânea de cerca de vinte ensaios escritos por orientandos e colegas da faculdade. Esses ensaios vão estudar os grandes autores da literatura ocidental, desde Homero até os atuais. Fiz questão de incluir Machado de Assis, entre todos os outros estrangeiros.
BE - Quantos livros o senhor já publicou ao longo da sua carreira? Entre suas obras, existe alguma que considere mais especial ou marcante? Por quê?
Faria - Livros inteiros foram dez. Gosto de todos eles; cada um preencheu uma necessidade especial. Por exemplo, quando saí da Secretaria Municipal da Educação em 2000, escrevi um livro sobre as vicissitudes pelas quais passei no desempenho das minhas atividades; é um dos meus livros mais lidos pelo pessoal da Educação: A educação primária em Rio Preto: o processo de municipalização do ensino. Meu livro Estudos de literatura comparada também é muito procurado pelos interessados nos estudos dessa disciplina
BE - O que muda na relação com o conhecimento quando se fica mais experiente? O senhor acredita que a maturidade traz outro olhar sobre a literatura e o mundo?
Faria - O mundo se torna melhor, mais abrangente. Traz sabedoria e paz. Ou melhor, copiando Carlos Drummond de Andrade, de "A ingaia ciência".
A madureza sabe o preço exato dos amores, dos ócios, dos quebrantos, e nada pode contra sua ciência e nem contra si mesma. O agudo olfato, o agudo olhar, a mão, livre de encantos se destroem no sonho da existência. O velho não deve se fechar em si mesmo, nem deixar de se surpreender com uma nova vista pela janela.
BE - Se pudesse deixar um conselho para jovens pesquisadores que estão começando agora, um conselho de vida, não apenas acadêmico, qual seria?
Faria - Meu conselho é lutar contra as ventanias e vendavais que surgem no caminho. Não desanimar. Enfrentar os desafios que aparecerem. Sobretudo, leiam, leiam, leiam. Os livros não estão tão caros quanto antigamente. Se não puder comprar, procure-os nas bibliotecas públicas. Por fim, acreditar em si e em suas potencialidades. O sucesso ampara aqueles que lutam incessantemente.
