O rio-pretano Lazslo Ávila publica ‘O Grito de Gaia – Amanhã, Talvez’ (2025), desta feita em dueto criativo com o anglo-brasileiro David Hewitt. Como em ‘7 Bosch em Mim’ (2022), o novo romance espelha atributos do intelectual afeito à pesquisa acadêmica, ao ensino e à medicina em psicanálise. Como romancista, sobressaem-lhe a carícia das palavras literárias, a fruição humanista das obras de arte e imaginação criativa. Juntam-se o prazer de escritor, o ânimo em conceber literariedades e, quiçá, a autoanálise pela arteterapia. Aproxima-se de notáveis psicanalistas-ficcionistas nacionais como Contardo Calligaris, Maria Rita Kehl, Aldir Blanc...
Em esboço crítico a esse livro, apresento frases do capítulo 16 (Presságios e Profecias), pela voz de um personagem axial. Focando atentados ao ecossistema, teatraliza protestos: “É o fim do mundo! A Natureza não pode mais aceitar tantas agressões... Não podemos continuar agindo como se só nós, homens, importássemos”. Apregoa em gritos que “a humanidade precisa ser interrompida, está matando o planeta!”. Lembremos: na Grécia antiga, e atualizando-se nos tempos, a deusa Gaia é o mito da fertilidade, a terra-mãe ancestral de onde provém quase tudo. Simboliza o ente físico e moral a atar os humanos às coisas do mundo.
‘O Grito de Gaia – Amanhã, Talvez’ reflete efeitos cognitivos e intertextuais. Implicaria evocações à Inteligência Artificial do computador HALL 9000, na ficção premonitória de Arthur Clarke (adaptado ao cinema por Stanley Kubrick em ‘2001: Uma Odisseia no Espaço’, 1968). Nela, o dispositivo eletrônico decide eliminar os humanos, pois tornaram-se nocivos à missão sideral. Lembra o Dilúvio bíblico em que águas purificadoras de Deus varrem os rastros humanos para o recomeço. Engloba o Apocalipse de João (Livro das Revelações) em que delírios proféticos produzem imagens surreais. O encadeamento de signos no romance de Lazslo e David resvalam na entidade mítica do mendigo-cego Tirésias: É preciso perder os olhos para de fato enxergar.
O menosprezo à ecologia reportado no texto se liga ao desfibramento moral, colapso da ética e desconstrução de valores nos últimos tempos. Denotam ambições dos maiorais. Os enredos em ‘O Grito de Gaia – Amanhã, Talvez’ suprem, com pontuais alertas aos usos e costumes, a necessidade humana de se contar e ouvir histórias. E o realiza em fluente jogo ficcional. Explico citando dizeres do poeta e pensador italiano Benedetto Croce: “A poesia não é simples sentimento ou cópia do sentimento, mas elaboração literária do sentimento” (A Poesia, 1967). Uma profusão de estímulos e artesanias da linguagem afloram nas páginas de Lazslo e David.
Além de alusões a estímulos conhecidos como fatos da realidade, a capa do livro dialoga diretamente com o tema. Reproduz uma das mais famosas pinturas modernas, ‘O Grito’ (1893), do norueguês Edvard Munch: um rosto em desespero alegoriza os sentimentos. Atrás dele, em rubros, alaranjados e azuis enegrecidos, o céu se contorce em espirais, agita-se convulso. Nas frestas do romance dissipam-se as boas venturas. E se ouve, inda que levemente, um sustenido grito ecoando entre cenários.
