Acompanho a Galeria Bassitt desde os alicerces; meu pai era operário de obra. Hoje, encardida e desocupada, guarda o charme nostálgico nas onduladas paredes revestidas em pastilhas. Não é desses caixotes que se erguem, monótonos, nas ruas centrais da cidade. Ao pé da escada em espiral que conduzia à Rádio Independência, presenciei casais depositarem as alianças em forma de “ouro para o bem do Brasil”. E saírem com anéis de latão e ares de patriotismo. Ecoando pelos corredores do térreo e sobreloja, acordes da Joia Musical, o teque-teque da Escola de Datilografia Renascentista, o riso grisalho do Telmo Maia, da Livraria Planalto, e o burburinho do Salão Azul onde Mozart, Cido, Pestana davam toques de elegância à homenzada.
Na calçada, sob grelhas de aço, ventiladores faziam as moças abafarem as saias plissadas imitando Marilyn Monroe em ‘O Pecado Mora ao Lado’. Senti a tristura das seis da tarde quando a urbe, compungida, fazia a prece da Ave Maria. Após, Antônio Carlos Bottas anunciava as fitas dos cinemas. Ao som orquestral de filmes inesquecíveis, abria o programa recitando versos de Guilherme de Almeida: “Infeliz de quem passa pelo mundo, / procurando no amor felicidade, / a mais doce ilusão dura um segundo, / e dura a vida inteira uma saudade”. Em seguida: no Cine Rio Preto, às 19h40 e 21h30, em tecnicolor e cinemascope, Gregory Peck, David Niven e Antony Quinn em... ‘Os Canhões de Navarone’.
Inda ressoam vozes desportivas de Nélson Antônio, Hitler Fett, Alexandre Macedo e Mário Luiz, “o comentarista que sabe o que diz”, e intervenções do radioescuta José Luís Rey. Tinha a Hora do Motorista, com Araújo Anetto. E, no calor das tardes, Roberto Toledo e Valéria (a misteriosa Lady X) folheavam horóscopos do dia e páginas musicais. Amaury Jr. e César Muanis traduziam o tom high-life da urbe acaipirada, e o mesmo Bottas travestia-se de Véio Tatau tocando cururus e toadas lembrando-se da roça.
Custa dissipar da memória a locução com terna elegância de Adib Muanis. Na hora do almoço, Petrônio di Ávila interpretava a Crônica do Dia, escrita por Dinorath do Valle. Eram recortes da existência traduzida em lirismo. A Hora Fantástica trazia notícias policiais pela voz de Clenira Sarkis, a mulher que teimava pela vida dos outros e, hoje, pela própria vida. Ouvíamos meiguices dos repórteres Eládio Baida, Paulo Serra Martins e Garcia Neto. E a singela Cecília Mota, de entonação solidária, caía em prantos com os entrevistados.
Houve tempo em que Rio Preto e sua Independência eram um mútuo pertencimento. Tal como a visionaram, em 1962, os sonhadores Júlio Cozzi e Maurício Goulart. Nas ondas de sermos, ouvíamos Roberto Souza, o Dono da Noite. Seus afetos resumiam a Era de Ouro dum lugar que se dispunha a barganhar, ao pé da escada, o amor eterno por anéis baratos, na hoje silente Galeria Bassit. Dizem que a saudade mata, mas dessa maldade só poucas vezes morri. A estação de rádio exauriu-se, no chiado dos anos que não tinham pressa. E a cidade, órfã de suas raízes, aos poucos se olvida de si.
