O perigo das medicações? Usá-las sem necessidade, obviamente.
Mas existe outro, muito mais sutil, que é acreditar que todo sofrimento emocional é apenas um desequilíbrio químico à espera da dose correta. A experiência humana é muito mais complexa do que isso.
E, quando tratamos de problemas emocionais, estamos falando de diagnósticos que são muitas vezes autodeclarados, não aparecem em exames, se baseiam pela observação clínica e pelo relato dos pacientes. Ainda não temos como escapar da subjetividade, por isso é fundamental a indicação de profissionais criteriosos.
Muito se fala de maus diagnósticos e muito pouco do tanto que os problemas mentais são subnotificados. Nós convivemos tanto com diagnósticos equivocados quanto com milhares de pessoas que jamais recebem o tratamento de que precisam e não deveríamos defender nenhum desses extremos.
O sucesso das canetas emagrecedoras mostrou o quanto estamos dispostos a trocar processos por resultados imediatos e o quanto nossa cultura valoriza o alívio rápido em detrimento da compreensão das causas. Tratamos sintomas, enquanto permanecemos produzindo as mesmas condições que os originaram e essa lógica também invade a saúde mental.
Sabe o que assusta? As pessoas não associam mais "Transtorno Depressivo" a quem passou por sua história de vida e teve dificuldades que a incapacitaram emocionalmente e não alguém que nasceu com uma enfermidade.
Esse é o perigo de classificarmos as pessoas. Estarem dissociadas de uma vida que procura por sentido, aceitação, laços e reconhecimento. Hoje, muitos acreditam que um Transtorno Depressivo é apenas uma enfermidade que apareceu espontaneamente, como se pudesse ser compreendido sem considerar perdas, frustrações, violências, isolamento, lutos, relações adoecidas ou uma vida que perdeu o sentido.
Evidentemente que, nesse processo, existem componentes biológicos importantes e quadros em que a medicação é indispensável. Mas reduzir a depressão apenas à biologia empobrece sua compreensão.
Nenhum antidepressivo substitui vínculos, pertencimento, reconhecimento, elaboração das dores ou a construção de um projeto de vida. Nenhum comprimido ensina alguém a enfrentar uma perda, reparar uma relação ou descobrir um sentido para continuar vivendo.
A medicação, quando bem indicada, pode devolver ao paciente as condições necessárias para fazer esse percurso. Mas não deveria ser o percurso.
O verdadeiro perigo não está nos remédios, mas na ilusão de que eles possam responder, sozinhos, às perguntas que pertencem à existência. Quando o tratamento silencia o sintoma, mas ignora a história da pessoa, corre-se o risco de aliviar a dor sem jamais compreender o sofrimento que lhe deu origem.
Os medicamentos transformaram a medicina e salvaram milhões de vidas, o problema nunca foi a medicação. O perigo somos nós deixarmos ela ocupar o lugar daquilo que deveria apenas auxiliar.
