A insegurança patológica não é timidez, modéstia ou prudência. É uma distorção da percepção da autoeficácia, a convicção persistente de que “não dou conta”, mesmo diante de tarefas compatíveis com suas capacidades pessoais.
Para a psicologia cognitiva, esse é um fenômeno da alteração na percepção de controle, e não necessariamente na competência real.
E vejam só, quanto mais a pessoa evita desafios, menos oportunidades tem de produzir evidências de que seria capaz. A sensação de competência vem do "treino" em se arriscar a fazer, corrigir, se necessário, e refazer melhor, até ficar satisfeito com o resultado final. Essa evitação em dar o primeiro passo, até protege a pessoa da ansiedade imediata, mas alimenta abastadamente a insegurança futura.
O problema então não é apenas sentir ansiedade, e sim perder a chance de que a própria ação possa modificar o desfecho e o sentimento.
A neurociência ajuda a explicar esse mecanismo. Estudos mostram que a exposição prolongada a situações percebidas como incontroláveis altera o funcionamento entre o córtex pré-frontal e circuitos relacionados ao medo e à passividade. É exatamente no córtex pré-frontal que fazemos a regulação emocional responsável por planejamento e julgamento. Conclusão: há pessoas que não fogem dos desafios porque são fracas. Fogem porque o cérebro passou a acreditar que o mundo exige mais delas do que elas são capazes de oferecer.
Muitos confundem insegurança com falta de autoestima. Não são sinônimos. Uma pessoa pode reconhecer suas qualidades intelectuais, profissionais ou morais e, ainda assim, sentir-se incapaz de enfrentar conversas difíceis, mudanças de carreira ou relações afetivas. O núcleo da insegurança patológica não é “eu não tenho valor”, e sim “eu não tenho potência”.
Os medos nascem de nosso íntimo, eles são menos filhos de grandes traumas isolados e mais da repetição de experiências em que as críticas são constantes e imprevisíveis, pais emocionalmente inconsistentes ou relações em que nunca há resposta proporcional ao investimento. O mais cruel da insegurança patológica é que ela rouba futuros que nunca chegam a existir.
Não destrói apenas oportunidades, destrói a vontade de tentar. A pessoa começa a dizer “não” antes mesmo de ser convidada, pede desculpas por ocupar espaço e confunde cautela com destino. Aos poucos, sua biografia deixa de ser escrita pelas escolhas e passa a ser escrita pelos medos.
A pessoa não sofre por fracassar, sofre porque vive cercada de portas fechadas, por dentro.
A boa notícia é que o mesmo cérebro que aprende a impotência pode aprender o controle. Pesquisas recentes mostram que experiências graduais de enfrentamento bem-sucedido fortalecem novamente os circuitos de autorregulação e restauram a percepção de eficácia. Não é pensamento positivo; é aprendizagem neurobiológica. É onde começa o trabalho psicoterapêutico, porque ele não consiste em esperar que você se sinta capaz, mas em começar a construir, deliberadamente, evidências de que é.
Depois de 30 anos de consultório, descobri que a insegurança é uma péssima roteirista: ela faz uma pessoa ensaiar a conversa de três minutos durante quatro dias, imaginar dezessete desastres sociais e, muitas vezes, receber um: “Claro, sem problemas.” A mente produz uma superprodução de Hollywood. A realidade entrega um curta-metragem de dois minutos.
A perda de tempo, de energia e o enorme desgaste precisam de tratamento. Energia emocional é vida, e precisamos de reservas para termos uma boa vida.
Karina Younan
Psicoterapeuta, mestre em ciências da saúde pela Famerp, mãe de artista e apaixonada pela vertente fenomenológica existencial
@kayounan
