Há algo profundamente adoecido no feminino contemporâneo – e não é fragilidade, como tantas vezes se tenta nomear. É exaustão.
Uma exaustão que não nasce apenas do trabalho formal, mas do trabalho invisível: aquele que não tem ponto, salário ou reconhecimento, mas consome energia psíquica diária. Organizar a vida, antecipar necessidades, lembrar datas, sustentar vínculos, amortecer conflitos, cuidar dos filhos – não apenas no que é prático, mas no que é emocional. O feminino tornou-se a grande engrenagem silenciosa que mantém tudo funcionando.
Mesmo quando há divisão “igualitária” das tarefas, o custo mental raramente é dividido. A mulher continua sendo a gestora do cotidiano. E quando há filhos, esse peso dobra: o corpo que gera, o corpo que cuida, a mente que nunca descansa. A maternidade, romantizada no discurso social, é atravessada por uma solidão estrutural que pouco se discute.
Some-se a isso o preço emocional de viver com um homem. Não com “os homens” enquanto categoria abstrata, mas com homens reais, formados em uma cultura que pouco os ensinou a reconhecer, nomear e sustentar afetos. Muitas mulheres aprendem, desde cedo, a se modelar: ajustar o tom de voz, escolher palavras, medir reações, mediar explosões, conter o próprio sentir para não provocar o sentir agressivo do outro. Tornam-se tradutoras emocionais dentro da própria casa.
Esse exercício constante de autocontenção – que muitas confundem com maturidade – cobra um preço alto. Ele adoece. Gera ansiedade, culpa difusa, sensação de inadequação permanente. A mulher passa a existir em estado de alerta.
Diante disso, não é raro que algumas tentem materializar uma compensação: exigir que o parceiro pague as contas, banque a vida, sustente financeiramente aquilo que emocionalmente já está sendo sustentado por elas. Não se trata, apenas, de interesse ou oportunismo, como o senso comum apressa-se em julgar. Trata-se de uma tentativa – muitas vezes inconsciente – de dar forma concreta a um desgaste que não encontra linguagem nem reconhecimento.
A série “All Her Fault” toca exatamente nesse ponto sensível: quando tudo recai sobre a mulher, inclusive a culpa. Quando algo falha, o dedo aponta para ela. A mãe. A companheira. A mulher que “deveria ter previsto”, “deveria ter feito diferente”, “deveria dar conta”. A narrativa expõe uma sociedade que deposita no feminino a responsabilidade pelo equilíbrio emocional do mundo – e depois o condena por adoecer.
O que vemos hoje não é um feminino frágil. É um feminino sobrecarregado, operando além dos próprios limites, tentando sustentar relações, famílias e estruturas que pouco se reorganizaram para acompanhá-lo. Um feminino que começa, finalmente, a dizer: não dá mais.
Talvez o mal-estar atual não seja um problema individual, mas um sintoma social. Um pedido urgente de redistribuição – não apenas de tarefas, mas de responsabilidade emocional, de escuta, de maturidade afetiva.
Enquanto isso não acontece, o adoecimento segue sendo lido como falha pessoal da mulher. Quando, na verdade, é o retrato fiel de um sistema que exige demais e devolve de menos.
