São relatos cada vez mais frequentes. No consultório, essa não é mais uma fala rara – e também não é qualquer fala. No caso de mulheres, principalmente as que construíram autonomia material e pessoal,
elas não chegam dizendo que “não conseguem se relacionar”, dizem algo mais preciso – e, muitas vezes, mais difícil de sustentar: “Eu não estou mais disposta.”
Nos homens, especialmente os que lutaram para manter suas relações e, ainda assim, não conseguiram mantê-las, aparecem pensamentos parecidos.
E não se trata de desinteresse pelo amor, ou uma defesa apressada contra frustrações. Ao contrário, muitas dessas pessoas já se implicaram profundamente em seus relacionamentos. Já tentaram, investiram, sustentaram vínculos por tempo suficiente para reconhecer certos padrões. O que aparece, com frequência, é uma espécie de cansaço. Uma percepção de que, apesar das transformações sociais, há dinâmicas que seguem se repetindo dentro das relações, ainda muito padronizadas – especialmente quando não existe mais dependência econômica, ou quando há repertório emocional e já não se aceita ocupar lugares tradicionais de forma automática.
Na visão feminina, elas vão sendo convocadas a um tipo de trabalho invisível: organizar a vida cotidiana, sustentar o campo emocional, administrar conflitos, propor conversas, elaborar impasses, cuidar do emocional de todos. E, não raramente, sozinhas. Para elas, o mais dramático não é a ausência de homens, como tanto se propagandeia, mas sim a ausência de homens disponíveis para um encontro em condições mais simétricas. E não digo disponíveis em relação ao tempo, mas na escuta, na implicação, na capacidade de se responsabilizar pelo que produzem na relação.
Para os homens, o peso maior fica claramente sobre o sustento financeiro da família constituída e sobre uma demanda emocional que exigiu deles muito mais do que foram educados a perceber.
Vivenciamos um dilema maior do que “ter ou não ter alguém”. É a qualidade do vínculo possível que está em suspeição. E, quando essa qualidade não aparece, algo se torna muito claro: o custo psíquico de sustentar certas relações é alto demais.
Em ambos os casos, trata-se da busca por paz interior. Na clínica, isso não surge como um discurso ideológico pronto, surge como experiências vividas. Como o cansaço de quem percebe que, para estar em um relacionamento, precisaria abrir mão de uma organização interna que levou anos para construir. Como a recusa em voltar a lugares onde já esteve – lugares de excesso de adaptação, de sobrecarga emocional, de solidão acompanhada.
Por isso, a escolha por não assumir compromissos amorosos não é vivida exatamente como perda, embora exija o sacrifício de uma visão mais romantizada da vida.
Há solidão, sim. Há falta, há o desejo de encontro, de intimidade. Mas, ao mesmo tempo, há um limite mais nítido, uma espécie de acordo interno: não a qualquer custo.
As pessoas não deixam de desejar o amor, mas estão menos dispostas a negociar tantas privações para que ele exista. E talvez o que apareça na clínica – de forma ainda silenciosa, mas insistente – seja menos uma recusa ao outro e mais um deslocamento importante: a recusa a sustentar relações que dependem, fundamentalmente, da desigualdade para funcionar.
Nesse sentido, a solidão não é ausência de parceria, é também efeito de uma escolha ética. E, embora essa escolha tenha um preço, muitas delas parecem reconhecer algo que não estão mais dispostas a perder: um respeito que demoraram a conquistar para si.
