Foi por acaso que conheci a obra de Tupã Paraná Nicolau, artista conhecido por pintar faixas, paralamas e carrocerias de caminhões. Isso aconteceu em agosto de 2002, quando fui fotografar uma festa religiosa no interior do Paraná. No trajeto, fui convidado a visitar uma igreja na cidade de Ribeirão do Pinhal – então com pouco mais de 13 mil habitantes – por onde eu apenas passaria. Disseram-me que ali havia uma Santa Ceia diferente, que valeria a pena ser fotografada. Aceitei o convite e fui conferir.
O que encontrei foi uma obra belíssima, carregada de uma história impressionante. A igreja era a Matriz da cidade e, até então, não possuía adereços em seu altar. Construída com muito esforço pela população local, tinha à frente o padre André Jaworski, um sacerdote trabalhador, de temperamento forte. Após consultar pintores especializados em igrejas, o padre constatou que seria impossível contratá-los devido ao alto custo.
Sem alternativa, decidiu conversar com Nicolau, que, além de seu trabalho comercial, pintava esporadicamente telas com paisagens rurais e cavalos. Esse talento chamou a atenção do padre, que lhe propôs o desafio de pintar o altar da igreja. De início, Nicolau recusou, alegando que “não era sua praia”. O padre insistiu, e o artista pediu um tempo para pensar.
Certo dia, durante uma missa dominical com a igreja lotada, o padre André antecipou a resposta e anunciou aos fiéis que o artista pintaria o altar. Ao final da celebração, Nicolau procurou o padre para saber qual seria o tema da obra e ouviu, como resposta, que seria a Santa Ceia de Leonardo da Vinci. Surpreso, Nicolau afirmou que tal façanha seria impossível. O padre então explicou que a obra seria diferente: os apóstolos seriam pessoas que marcaram a história da Igreja Católica, tanto no âmbito universal quanto regional.
— Tudo bem, mas e o Judas Iscariotes? — perguntou o artista.
— Vou pensar — respondeu o padre.
O tempo passou e, com a obra já bastante adiantada, Nicolau voltou a questionar:
— E o Judas?
Desta vez, a resposta veio direta:
— Será você, Nicolau! Fica a seu critério e criatividade.
Diante disso, Nicolau decidiu pintar um autorretrato, posicionado atrás de uma coluna, observando de longe a Santa Ceia. Na pintura aparecem o padre André, o papa João Paulo II, Dom Hélder Câmara, entre outros religiosos escolhidos.
Tive o privilégio de passar uma tarde com Tupã Paraná Nicolau, entrevistando-o e fotografando sua obra. Dez anos depois, em 24 de junho de 2012, a cidade perdia seu principal artista.
Toninho Cury
Fotógrafo
@toninhocury
