No artigo da semana passada, já contextualizamos muitas das questões sociais que são reflexo da aceleração tecnológica pela qual passamos. Neste artigo, vamos aprofundar um pouco um tema essencial para conseguirmos reforçar o estarmos vivos neste processo e não, simplesmente, funcionando. E, para me ajudar neste processo de aprofundamento, recebi o professor e coordenador da FIAP, André Maluf, para um bate-papo na comunidade Reinvente.
André abriu o encontro questionando: o que é, de fato, tecnologia? E nos trouxe uma definição que desfaz muita confusão: tecnologia é qualquer coisa que transforma recursos em resultados. E a definição que ele nos trouxe importa muito, porque tendemos a olhar para o futuro de forma altamente tecnológica, mas com os olhos fixos nas ferramentas mais recentes, como IA, automação, agentes digitais, mas acabamos esquecendo que uma das tecnologias mais impactantes da história humana foi o vaso sanitário. Uma invenção que aumentou a expectativa de vida em 24 anos. Não porque fosse glamourosa ou disruptiva no sentido moderno da palavra, mas porque resolveu um problema humano real com profundidade e escala. André usou esse exemplo para nos lembrar que o critério de relevância de uma tecnologia não é o quanto ela impressiona, mas o quanto ela transforma a vida de quem a usa.
Temos falado ao longo deste ano sobre o Agir com Propósito. E essa discussão nos trouxe uma dimensão que conecta diretamente com esse lema: o futuro não é algo que acontece com a gente. É algo que estamos construindo agora, com as escolhas que fazemos hoje. Cada decisão de aprender ou não aprender, de se preparar ou esperar, de investir na cultura da equipe ou postergar esse movimento, acaba moldando, neste exato momento, o futuro que encontraremos pela frente.
E aqui entra para mim a questão-chave deste processo, pois, num cenário em que o ciclo de obsolescência das tecnologias é tão curto quanto o ciclo de surgimento de novas, a questão não é mais dominar uma ferramenta específica. A questão é desenvolver a capacidade de aprender continuamente. Parece óbvio, mas, como costumo dizer, “gênio é aquele que faz justamente o óbvio”. Não é tão simples como parece desenvolver uma cultura de aprendizagem orientada a resolver de verdade problemas reais com as tecnologias disponíveis, gerando o impacto desejado.
Para se preparar para liderar nessa explosão tecnológica, é preciso primeiro entender que o mercado muda quando os custos de criar, distribuir e decidir caem ao mesmo tempo, e que toda grande onda tecnológica não muda apenas ferramentas, mas comportamentos, modelos de poder e critérios de competição. E, em seguida, é essencial que o líder adote o comportamento de aprendiz. Em tempos de mudança exponencial, a verdadeira preparação não está em saber tudo. Está em nunca parar de aprender. O lifelong learning deixou de ser um diferencial para se tornar uma competência essencial de sobrevivência organizacional. E o desafio é justamente porque uma cultura de aprendizagem não se constrói de cima para baixo com ferramentas, mas sim de dentro para fora com intenção.
Que possamos agir com propósito também na forma como nos preparamos para o futuro. Para isso, é preciso termos a humildade de reconhecer o que ainda não sabemos e a coragem de aprender sempre. Também passa a ser fundamental desenvolvermos nossas equipes não apenas tecnicamente, mas para integrarem-se a uma cultura em que o aprender seja valorizado, celebrado e praticado todos os dias.
