Dando sequência ao aprofundamento do eixo temático central dos artigos da coluna neste ano, convidei o especialista em psicologia positiva e liderança de alta performance, Flávio Neves, para um bate-papo na Comunidade Reinvente. Explorar o tema "Agir com propósito" é um tema que tem exigido muito mais do que imaginava, pois tem sido um desafio árduo reforçar o alinhamento dos resultados sem abrir mão do propósito frente a um cenário de tantas mudanças. Mas, a cada desafio superado, a sensação que fica é que a melhor forma de construirmos uma jornada sustentável na vida é realmente estruturando nossas ações justamente pelo propósito e fazendo os devidos ajustes para manter os resultados sendo gerados por esta força norteadora.
Empilhar tijolos. Construir uma parede. Erguer uma catedral. Três respostas possíveis para a mesma pergunta, feita a três pedreiros fazendo exatamente o mesmo trabalho. A diferença entre eles não está no que fazem, mas em como enxergam o que fazem. Foi com esse exemplo simples que Flávio trouxe uma distinção clara entre tarefa, carreira e chamado. A tarefa é cumprida porque precisa ser cumprida e, dentro desta perspectiva, acaba não havendo significado ou conexão com o que fazemos. É o atendente que apenas responde, o garçom que apenas serve. A visão de carreira já carrega um horizonte para a minha vida: faço isso porque, mais à frente, estarei em um lugar melhor. Mas o agir com propósito está na dimensão do chamado, que é quando a pessoa enxerga, no que faz hoje, parte de algo maior. E o nosso papel mais nobre no exercício da nossa liderança é justamente ajudar quem cumpre tarefas a descobrir o seu chamado.
A ciência ajuda a explicar a sensação de bem-estar que temos quando vivemos nosso chamado, que se trata de uma dimensão subjetiva, mas fundamental para nos sentirmos realizados na vida. E, dentro do bem-estar subjetivo, Flávio fez uma distinção que considero uma das mais importantes do encontro: hedonia, o prazer pelo prazer, e eudaimonia, a felicidade que custa esforço, tempo e dedicação. O problema não está em buscar prazer, mas na busca do prazer pelo prazer, que não gera satisfação de longo prazo e não alicerça o nosso agir para construir nosso propósito. Atualmente, a sociedade tem sido sobrecarregada de prazeres imediatos e se tornando cada vez menos desejosa de fazer esforço para usufruir do prazer que sustenta de fato a realização pessoal. E não é mera coincidência os impactos que vemos na saúde mental.
Como ele explica, é possível termos bem-estar objetivo completo, com o carro importado na garagem e a viagem internacional marcada, e ainda assim estarmos mergulhados em sofrimento profundo, por falta da eudaimonia, ou seja, do esforço que vale a pena e que faz com que a vida em si valha a pena. Falta cozinhar por duas horas para comer em vinte minutos e sentir, na prática, o prazer de ter dedicado tempo a algo. Vivemos cada vez mais cercados de atalhos, e cada atalho que tiramos da nossa rotina também tira de nós uma oportunidade de florescimento.
E, para fechar este artigo, quero retomar outra metáfora que Flávio compartilhou conosco, que fortalece o propósito no agir da liderança: um botão fechado não floresce porque alguém o força a abrir com uma pinça, mas sim quando recebe as condições certas: sol, água, solo adequado. A liderança funciona exatamente assim. Não cabe ao líder forçar o florescimento de ninguém, mas criar as condições para que cada pessoa floresça. Não é uma tarefa fácil quando o mundo nos pressiona para entregar os resultados com cada vez mais velocidade. Mas é como nossa natureza funciona. E, ao conseguirmos fazer este alinhamento, com certeza ganhamos muito mais potência para entregar todos os resultados necessários ao longo do tempo.
