Já escrevi vários artigos sobre alguns dos nossos poderes simples do dia a dia que, ao cultivarmos, nos fortalecem muito no exercício da nossa liderança. Como estive de férias as duas últimas semanas, quero abordar este poder de grande impacto que é descansar. E já quero reforçar que estou escrevendo este artigo na viagem de volta, antes de iniciar a retomada das atividades. E, por incrível que pareça, é a primeira vez que estou abrindo o notebook em toda a viagem. Portanto, o que compartilho aqui é com base na minha percepção destas duas últimas semanas, ainda sem me inteirar de tudo o que aconteceu nestes dias na empresa.
E, para mim, é aqui que está o verdadeiro descanso: ter confiança de que, ao me ausentar, a cultura inovadora humanizada tem força suficiente para seguir o jogo, manter nossos clientes satisfeitos, resolver os problemas que emergem e seguir inovando e buscando os resultados em equipe. Vivemos em uma cultura que ainda romantiza o excesso, que confunde presença constante com comprometimento, que trata o descanso como fraqueza. E isso é uma grande incoerência da liderança, que leva aos quadros extremos de burnout que temos visto. E é incoerente, porque sabemos que, para mantermos alta performance na cultura organizacional, é necessário valorizar o descanso. E não apenas o descanso das férias que me inspirou a escrever o artigo, mas também o descanso diário depois de terminar as atividades de cada dia.
Um líder que nunca descansa não está sendo mais produtivo, está apenas adiando o custo de não se cuidar. E o pior é que tende a se tornar menos sensível à necessidade de descanso da própria equipe, reforçando a incoerência que comentei acima. Com a entrada em vigor das novas normas da NR-01 neste mês de maio, torna-se ainda mais importante para o líder aprender a exercer esse poder e estimular que todos na sua equipe também o façam. E para quem precisa de argumentos científicos para se convencer a descansar, a neurociência já comprova que o descanso não é o oposto do trabalho produtivo, mas é a base para ele. É no descanso que o cérebro consolida aprendizados, reorganiza prioridades e recupera a capacidade criativa necessária para lidar com as complexidades dos problemas na liderança.
O mais bonito para mim nessas duas semanas foi justamente o cuidado de todos na minha equipe em preservarem e respeitarem esse momento de descanso. Ninguém me acionou para nenhum pedido, nenhuma urgência, nenhum problema. E é claro que deve ter havido inúmeros problemas e situações adversas em um período desses, mas, quando a cultura é forte e valoriza o descanso de todos, o respeito se faz presente e o cuidar do outro se torna importante. A clareza dos pilares da cultura faz com que a empresa não dependa unicamente do fundador e possa ter uma estrutura que funciona mesmo quando ele não está.
Muitos líderes que não conseguem se afastar geralmente não têm confiança de que as coisas fluirão sem que ele esteja de alguma forma conectado. A melhor forma de lidar com isso é investir no fortalecimento da cultura para que o descanso entre na pauta da liderança como parte integrante de uma cultura de alta performance sustentável. Que possamos nos permitir parar sem medo, sabendo que uma cultura forte não para com a gente. Afinal, um líder que cuida de si mesmo está, acima de tudo, cuidando da sua própria liderança.
