No artigo da semana passada, apresentei o conceito central do livro Franqueza Radical, de Kim Scott, no primeiro artigo de uma série de quatro em que buscarei trazer os principais insights desta leitura que me impactou muito neste ano. De acordo com a autora, a melhor liderança vive na interseção de duas dimensões que precisam coexistir em harmonia: cuidar pessoalmente e desafiar diretamente as pessoas da sua equipe com uma postura franca em feedbacks assertivos no dia a dia da relação entre líder e liderado. Um conceito que tem muito do desafio de equilibrar as dimensões de propósito e resultados que tenho discutido ao longo do ano por conta do lema “agir com propósito”. Neste artigo, detalharei um pouco sobre a primeira dimensão.
E, em vez de definir o que o conceito “cuidar pessoalmente” significa, vou definir o que não é cuidar pessoalmente de acordo com ela. Não é ser simpático, nem evitar conflitos, e também não é criar um ambiente agradável em que ninguém se sente desconfortável. Desmistificar o cuidado nesse sentido é muito importante porque o cuidado excessivo que busque garantir esses três aspectos a qualquer custo pode minar a liderança e o ambiente necessário para crescimento e evolução da equipe e, consequentemente, do alcance dos resultados. Então agora podemos definir o que é “cuidar pessoalmente no sentido que Kim Scott propõe: é importar-se de verdade com quem está do outro lado, com quem a pessoa é, com o que ela quer construir na vida e na carreira, com o que está vivendo fora do trabalho e que inevitavelmente afeta o que acontece dentro dele, ou seja, é enxergar o ser humano por trás do colaborador.
Isso parece óbvio. Mas sabemos que gênio é quem faz o óbvio. E ser genial exigirá muito esforço da liderança para equilibrar, na prática, essas duas dimensões. Este é um dos movimentos mais exigentes da liderança por exigir presença e atenção do líder. Exige também que o líder tenha curiosidade pelo outro de maneira humanamente genuína. Exige exercitar sua memória para lembrar o que alguém compartilhou numa conversa informal e perguntar como aquilo evoluiu. Exige, acima de tudo, que o líder não trate as pessoas como recursos a serem gerenciados, mas como protagonistas de uma história que merece atenção e respeito.
Na minha trajetória como líder, aprendi que as transformações mais profundas nos profissionais com quem trabalhei raramente aconteceram por causa de um treinamento ou de uma estratégia bem desenhada que fizemos. Essas transformações aconteceram porque alguém enxergou o potencial que eles ainda não conseguiam ver em si mesmos. Esse é o poder do cuidar pessoalmente. Ele não apenas melhora o clima, mas desbloqueia o desempenho que, de outra forma, nunca se manifestaria.
Mas há um paradoxo importante que Kim Scott aponta com precisão no livro e que está diretamente ligado ao desafio que tenho enfrentado este ano: cuidar pessoalmente sem desafiar diretamente não pode ser entendido como cuidado. Ela até batizou de “Empatia Ruinosa” quando isso acontece. E essa é, segundo ela, a armadilha mais comum da liderança humanizada. Quando omitimos um feedback necessário para não magoar alguém de quem gostamos, estamos priorizando o nosso próprio conforto de não ter a conversa difícil e mascarando isso de cuidado.
O cuidado genuíno, portanto, não é o oposto da firmeza, pelo contrário, é o que dá à firmeza o seu sentido e que transforma um feedback difícil em uma atitude de respeito. É o que permite que uma conversa desconfortável seja recebida não como ataque, mas como cuidado genuíno. E é exatamente por isso que o cuidar pessoalmente precisa vir primeiro como alicerce de uma relação de confiança que torna possível dizer o que precisa ser dito quando o momento chega.
Daniel Rodrigues
Fundador da CCLi Consultoria Linguística, Empreendedor, Mentor e Palestrante daniel.rodrigues@cclinet.com.br
