Neste desafio do ano de trabalhar o tema "Agir com Propósito" sob múltiplas perspectivas, abordo hoje o contexto atual da inteligência artificial na nossa sociedade. Para aprofundar este tema, recebi Silas Serpa, doutor em antropologia organizacional e especialista com mais de trinta anos de experiência em transformação digital e cultura organizacional. Silas comenta logo de cara que uma das perguntas mais importantes para nos fazermos com relação à IA nas nossas organizações é justamente o que ela vai amplificar? A questão principal não diz respeito a como usar IA propriamente dita, nem sobre quantas ou quais ferramentas adotar. Mas o que, exatamente, a IA vai contribuir para que se torne maior, mais rápido e mais visível do que já existe sem ela.
A IA não entra em uma organização de forma neutra. Ela entra dentro de uma cultura estabelecida. E o que ela faz é amplificar o que já existe. Quando há clareza, amplia essa clareza. Quando há confusão, amplia a própria confusão. Quando há foco, amplia o foco. Quando há desorganização, digitaliza e escala a desorganização também. Por isso, a pergunta mais importante antes de qualquer decisão sobre IA não é tecnológica. É cultural. E é humana. Isso ressoa diretamente com o que tenho defendido aqui ao longo deste ano: o Agir com Propósito não é sobre fazer mais. É sobre fazer o que importa, com intenção real por trás de cada escolha.
E foi justamente sobre intenção que Silas trouxe uma distinção que me tocou fundo, porque reconheço esse padrão em muitas conversas que tenho com líderes e empreendedores: intenção não é propósito. Intenção mora no discurso: queremos inovar, queremos usar IA, queremos cuidar das pessoas. São desejos legítimos, mas ainda não necessariamente realidade. Propósito é outra coisa, pois ele aparece nas escolhas, ajudando a dar clareza para o que vamos priorizar, o que vamos deixar de fazer e como saberemos que estamos avançando. Olhar para essa distinção de intenção e propósito é fundamental para orientar a liderança para o propósito. É importante refletirmos sobre o quanto do que dizemos que queremos aparece de fato na nossa agenda, nas nossas decisões e nos recursos que alocamos.
Há um risco claro, portanto, neste processo de adoção das IAs quando não temos clareza do propósito, pois poderemos fazer mais rápido o que já estava errado: atendimento ruim automatizado em escala, comunicação genérica distribuída com mais velocidade, processo confuso digitalizado, relatório sem decisão gerado em segundos, etc. Para nos ajudar neste processo, Silas recomenda o framework dos três Is da liderança com propósito: 1) Intenção: por que isso importa, qual o problema real e qual o valor humano em jogo; 2) Inteligência: que dados temos, que decisão queremos melhorar e quais riscos precisamos considerar; e 3) Impacto: que resultado precisa aparecer e como saberemos que avançamos. Três perguntas que, respondidas, separam as iniciativas que realmente têm potencial de gerar resultados daquelas que apenas se tornam mais ações pelo hype desta era.
Que possamos usar a inteligência artificial como o que ela é: uma ferramenta que amplifica o que já construímos com intenção, potencializando a cultura que já abraçamos. A tecnologia pode acelerar muita coisa, mas só uma liderança madura transforma velocidade em direção. E é justamente essa liderança consciente, intencional e sistêmica que temos buscado construir, artigo a artigo, ao longo deste ano de Agir com Propósito.
