No artigo anterior, abordei o poder do descanso na liderança e como a cultura pode contribuir para que haja esse cuidado e essa possibilidade de desconexão total com a rotina para focar no cuidar de si mesmo e no lazer necessário. E também estou escrevendo este artigo já na sequência, antes de retomar de fato as atividades.
É como se estivesse escrevendo este artigo hoje para ajudar a mim mesmo a ter consciência da importância de nos prepararmos para retomar as atividades para tentarmos evitar a armadilha de voltarmos imediatamente ao automático. A tendência mais comum da maioria dos líderes ao retornarem de férias é exatamente o oposto do que o descanso nos proporciona: a aceleração imediata.
A caixa de entrada acumulada, as reuniões acumuladas, as decisões que esperavam e a pressão de "recuperar o tempo perdido" empurram o líder de volta à correria antes mesmo que ele tenha conseguido integrar o que viveu no período de pausa. E é nesse movimento automático que se perde grande parte do valor que o descanso pode trazer para a liderança.
A retomada com propósito começa antes de responder a qualquer mensagem ou entrar em qualquer reunião. Começa com uma pausa intencional para perguntar: o que mudou? O que aprendi? O que quero fazer diferente a partir de agora? Como manter a calma conquistada neste período no dia a dia sempre agitado? Não se trata de nada grandioso, mas de algo simples que pode ter um enorme impacto estratégico na liderança. É o líder como cientista de si mesmo, tema que exploramos no final de 2025, colocando em prática a capacidade de observar, refletir e escolher conscientemente como agir a partir do que viveu na fase de desconexão com a rotina.
Na prática, para mim, a retomada também é um momento precioso de reconexão com a equipe. Não para verificar o que foi ou não foi feito na minha ausência, mas para celebrar o que a cultura foi capaz de sustentar sozinha e para renovar o compromisso coletivo com o propósito que orienta o trabalho de todos. E a presença em cada contato com calma e intencionalidade é fundamental para a reconexão. Evitar o automatismo da aceleração é essencial para que isso possa acontecer de verdade.
Acredito que a retomada precisa ser tão intencional quanto o descanso. Agir com propósito não é apenas saber por que fazemos o que fazemos. É saber também como voltamos quando paramos. E é nessa consistência entre o pausar e o retomar que se revela, talvez com mais clareza do que em qualquer outra situação, a maturidade de uma liderança verdadeiramente humanizada.
