Recentemente tomei conhecimento da publicação do livro "Liderança Humanizada na Prática", escrito por Marcelo Andrade, que é mentor de líderes executivos e especialista em desenvolvimento humano aplicado ao ambiente corporativo. Fiz questão de convidá-lo para um bate-papo na nossa comunidade Reinvente para que pudesse contribuir com nosso desafio do ano de aprofundarmos nossa liderança humanizada prática no agir com propósito. Um ponto-chave que Marcelo toca logo no início do bate-papo é que a verdadeira liderança não começa pelo que fazemos, mas pelo que somos. Ou seja, primeiro temos a essência e, depois, a sua manifestação.
Investir em nossa liderança será sempre investir também em nós mesmos. Em sermos aquilo que queremos ser de fato e liderarmos a partir desta essência verdadeira. Na minha visão, é o ponto mais impactante da perspectiva de uma cultura inovadora humanizada. Ele nos explica que a nossa sociedade foi estruturada a partir de uma relação bélica, de controle e predição. As instituições, a educação e as organizações foram construídas sobre a lógica de controlar o que acontece e predizer o que virá. E a emoção que sustenta essa estrutura toda é o medo. Medo de perder o emprego, o cargo, a relevância, a posição. É o medo que nos molda, que molda as equipes, que molda a cultura das empresas. E, enquanto isso não for compreendido, qualquer conversa sobre liderança humanizada corre o risco de ser apenas superficial.
Marcelo nos trouxe também uma dimensão que raramente é tratada com a profundidade que merece: a dimensão do observador. Somos seres interpretativos. Captamos o mundo a partir de quem somos, e não a partir de quem o outro é. Cada certeza que carregamos, cada julgamento que fazemos, cada forma como lemos uma situação ou uma pessoa, é filtrada pela nossa história, pelas nossas experiências, pelas lentes que fomos construindo ao longo da vida. Dar-se conta disso é o que ele chama de aprendizagem de segundo grau: não apenas aprender novas técnicas, mas transformar o observador que você é.
Uma das distinções mais poderosas do encontro foi a diferença entre problemas e desafios adaptativos. Máquinas têm problemas. Troca-se o cabo com defeito por um novo e ela volta a funcionar. Pessoas, não. Pessoas têm histórias. E são as histórias que promovem, que travam, que transformam. O que chamamos de problema em uma equipe, na maioria das vezes, é uma conexão de histórias que ainda não encontrou o espaço certo para ser compreendida. E o papel do líder, nesse contexto, não é resolver o problema, mas criar as condições para que as histórias possam se encontrar, se ressignificar e convergir para uma nova realidade.
Por fim, ele também nos desafiou a repensar o que entendemos por paz. Paz não é ausência de conflito. Ausência de conflito é estagnação. Uma liderança sem tensão criativa, sem divergência, sem o atrito saudável das perspectivas diferentes tende a ser uma liderança que não move, que não transforma, que não evolui. O que a liderança humanizada propõe não é eliminar o conflito, mas transformá-lo, conduzindo as diferenças em direção a uma convergência de propósito. É exatamente aí que reside o papel mais nobre do líder: não como aquele que impõe uma solução, mas como aquele que cria o espaço para que a solução possa emergir.
Uma liderança humanizada na prática nos convida a observar a nós mesmos como ser humano que lidera, integrando nosso próprio agir com o propósito, para que possamos, com isso, contribuir para que nossos liderados possam se inspirar nesta postura e abraçarem o desafio de se tornarem eles mesmos observadores de si mesmos e abraçarem o propósito como norte verdadeiro na vida. Muitos problemas com os quais temos que lidar no dia a dia simplesmente deixariam de existir se todos de fato estivessem orientados a se transformarem pela força desta conexão com um propósito coletivo maior.
