Hoje trago o terceiro artigo da série sobre as reflexões do Cegente Summit, discutindo uma questão essencial sobre a qual tenho me aprofundado desde o lançamento do meu livro Cultura Inovadora Humanizada, que é como incluímos a evolução da tecnologia humana com a mesma ênfase que temos incluído a evolução da tecnologia na pauta dos planejamentos estratégicos.
Para aprofundar este tema, ninguém melhor do que a filósofa Lúcia Helena Galvão, que é uma das vozes mais profundas do pensamento humanista no Brasil hoje. Ela já começa trazendo um contexto sobre a evolução que tivemos em apenas setenta e seis anos, da década de 50 para cá, em que avançamos tecnologicamente mais do que em toda a história anterior da humanidade. Essas últimas décadas são marcadas pela velocidade, conectividade, inteligência artificial e longevidade que tornam inegável o nosso progresso tecnológico. Ao mesmo tempo, ela nos chama a atenção para o mesmo efeito visto em guerras, na polarização, no esgotamento e num certo vazio de sentido na humanidade.
Lúcia trouxe uma distinção importante sobre liderança dentro deste contexto: a diferença entre um líder de referência de produtividade e um líder de referência humana. O primeiro domina processos, entrega números, otimiza sistemas. O segundo oferece algo que nenhuma inteligência artificial consegue replicar: um referencial de como ser. E numa era em que as máquinas assumem progressivamente as funções operacionais, o que se torna cada vez mais escasso, e portanto mais valioso, é exatamente isso: a capacidade de ser uma referência humana genuína para quem está ao redor. Por mais simples que possa parecer, é um enorme desafio para qualquer liderança em meio a esse contexto de tantas mudanças.
Isso conversa diretamente com o que temos buscado construir na CCLi e com o que tem nos desafiado a darmos conta de viver o Agir com Propósito na prática diária. Uma cultura inovadora humanizada não é uma resposta à tecnologia, pois se trata de uma postura diante da vida e das pessoas. E Lúcia nos lembra que essa postura precisa de alicerces fortes que sustentam os pilares de qualquer cultura: valores, virtudes e sabedoria, como práticas diárias, escolhas conscientes, compromissos mantidos. Agirmos com propósito de acordo com a ética que ela compartilhou é fazermos o que deve ser feito sem que ninguém esteja nos olhando justamente por ser uma escolha consciente e genuína de sustentação da nossa própria moral enquanto humanos.
Dos nove fundamentos que Lúcia apresentou para a evolução da tecnologia humana, dois me tocaram com força particular. O primeiro é aprender a ganhar junto porque por trás de quase todos os problemas humanos, ela afirma sem hesitar, está o egoísmo. E o segundo é fixar um propósito e administrar diariamente o deslocamento em direção a ele. São dois nortes que tem o poder de nos ajudar a agirmos com propósito na vida evoluindo nossa tecnologia humana e desenvolvendo nossos negócios por consequência deste alinhamento.
Para fechar o artigo, trago uma outra reflexão que ela fez: “todos os homens morrem, mas nem todos vivem. Muitos apenas sobrevivem, porque não lutam para cruzar a linha divisória entre o animal e o humano”. E essa linha é exatamente onde a liderança inovadora humanizada acontece de verdade. Não apenas na eficiência dos processos ou na clareza dos indicadores, mas especialmente na escolha, feita todos os dias de agir a partir do que há de mais elevado em nós, mesmo quando o ambiente empurra para o automático, para o reativo, para o medo. Que possamos nos comprometer com a única evolução que, no fundo, importa: a evolução de quem somos. Que o conhecimento que buscamos seja aquele que nos torna melhores seres humanos e não apenas mais produtivos, mais rápidos ou mais eficientes. E que como melhores seres humanos possamos nos tornar melhores líderes.
