Ela nasceu em 1889, na Cidade Goiás, hoje patrimônio mundial da humanidade pela Unesco. Foi batizada como Anna Lins dos Guimarães Peixoto, mas tornou-se Cora Coralina perto dos 20 anos, quando apareceram seus primeiros poemas. Sua antiga casa é, hoje, um museu em homenagem à sua vida e à sua história literária.
“Poemas dos becos de Goiás e estórias mais”, de 1965, foi o primeiro livro que Cora Coralina (1889-1985) publicou. Ela tinha, então, 75 anos e vinha de uma trajetória sofrida. Depois que se casou em 1925, ela e o marido, Cantídio Bretas (1911-1934), mudaram-se para São Paulo. Viúva em 1934 e mãe de seis filhos (apenas quatro vivos), ela teve que buscar meios de sobreviver e cuidar da família.
Anna teve várias ocupações. Foi vendedora de livros e comerciante. Mas, a mais conhecida é a de doceira, atividade que exerceu por longos anos. Cora morou em vários lugares. Além de São Paulo, morou em Jaboticabal, Andradina e Penápolis. Para Goiás, ela retornaria apenas em 1956.
“Poemas dos becos de Goiás e estórias mais” foi publicado inicialmente pela Editora José Olímpio. A obra reúne 36 poemas, dentre os quais estão os de maior destaque de sua carreira: “Minha cidade”, “Antiguidades” e “Becos de Goiás”. São poemas que apresentam ao leitor experiências vividas, assistidas e ouvidas pela poeta, contista e cronista goiana. Trata-se de uma poética que integra tempo, história, memórias, geografia.
Esses poemas trazem, ainda, as tradições sociais e populares do Brasil Central, mesclando variados temas: “Beco da minha terra.../ Amo tua paisagem triste, ausente e suja/ Teu ar sombrio. Tua velha umidade andrajosa. / Teu lodo negro, esverdeado, escorregadio. / E a réstia de sol que ao meio-dia desce, fugidia, / e semeia polmes dourados no teu lixo pobre, / calçando de ouro a sandália velha, / jogada no teu monturo.”
Uma curiosidade. Carlos Drummond de Andrade, que conheceu a poesia de Cora, antes de conhecê-la pessoalmente, tomou para si a tarefa de apresentá-la ao Brasil. Foi o seu aval, em carta publicada em 1979, que lhe trouxe o reconhecimento literário, perto de 90 anos. Sobre a sua poesia ele diz: é “das mais diretas e comunicativas que já tenho lido e amado. Que riqueza de experiência humana, que sensibilidade especial e que lirismo identificado com as fontes da vida”.
Admiro a poeta. Uma escritora que nunca desistiu de escrever, mesmo não tendo garantia nenhuma de que veria seus textos publicados em livro ou mesmo que seria lida. Cora Coralina não renunciou a se expressar por meio da escrita em nenhum momento de sua longa vida. Impressionante. E gratificante para nós termos acesso a esse legado tão rico e que versa de maneira tão simples e lírica sobre o cotidiano e as inquietações humanas. Sua poesia é sempre uma excelente pedida!
Cora Coralina
POEMAS DOS BECOS DE GOIÁS
Editora: Global editora
Páginas: 240 (2023)
Preço: R$ 45 (Em sebos virtuais a partir de R$ 20)
Adriana Teles
Pós-doutora em literatura pela USP. Escritora e autora de diversos livros, dentre eles, Machado e Shakespeare, Intertextualidades (2017), Íris Negra e Dez Minutos no Museu (2023)
@adriana_da_costa_teles
youtube.com/@literaturafalada1014
