A bela história de “Tristão e Isolda” é uma espécie de “marco zero” na literatura ocidental. De acordo com estudiosos como Denis de Rougemont (1906-1985), é dela que vem a concepção de amor-paixão praticada em nossa literatura.
O mito de Tristão e Isolda vem da tradição oral celta e teria tido origem entre os séculos VI e IX. A história desses amantes viajou da Cornualha até a Bretanha Francesa, onde, no século XII, deu origem às primeiras versões escritas.
O mito de amor e morte desses amantes desafortunados era uma história independente. Porém, os autores das novelas de cavalaria acabaram, com o tempo, integrando Tristão à Távola Redonda. Ele passou, então, a figurar como um dos melhores cavaleiros do Rei Arthur.
Da Idade Média, restaram fragmentos do registro de diversos compiladores. O filólogo Joseph Bérdier (1864-1938) trabalhou com o que restou da recolha elaborada pelos principais – Béroul, Thomas d’Angleterre, Eilhart von Oberg – e organizou a narrativa de modo a ser contínua e fluida. Sua versão é a mais difundida no Brasil e em Portugal.
Tristão é sobrinho do Rei Marc da Cornualha. Cavaleiro corajoso e extremamente habilidoso, ele derrota o gigante irlandês Morholt e liberta os celtas das garras do monstro. Mais tarde, derrota um dragão e consegue a mão da irlandesa Isolda, a Loura, para seu tio.
No navio de volta para a Cornualha com Isolda, algo imprevisto ocorre. A mãe da jovem, que tinha poderes mágicos, havia preparado um “filtro do amor” para que a filha e o rei tomassem na noite de núpcias - ele garantiria a união eterna do casal, que jamais deixaria de se amar.
A questão é que, por equívoco, Tristão e Isolda tomam essa poção no percurso e se apaixonam perdidamente. Mesmo sabendo que devem lealdade ao rei, não conseguem evitar o sentimento que os consome e os torna imprudentes.
São inúmeras as peripécias que ajudam a compor a história. Muitas delas implicam enorme sofrimento a todos. O fato é que o amor-paixão parece incompatível com a vida neste mundo. E os amantes serão incapazes, por mais que se esforcem, de vivê-lo plenamente.
“Tristão e Isolda” é frequentemente apontado como a primeira grande manifestação dessa maneira de representar o amor na literatura ocidental: uma força da natureza (simbolizada pela poção) que atropela a vontade dos amantes e os faz desrespeitarem noções como lealdade e honra – dilemas éticos e psicológicos até então ausentes nas histórias romanescas.
O mito criou, por fim, o arquétipo do amor proibido, aquele que encontramos em Romeu e Julieta, Inês e Pedro, Catherine e Heathcliff, entre muitos outros. “Tristão e Isolda” plantaria a ideia de incompatibilidade entre o casamento, então atrelado a conveniências, e os sentimentos, alheios a arranjos. “Marco zero” de uma tradição literária, é imperdível e está disponível em Domínio Público!
O ROMANCE DE TRISTÃO E ISOLDA
Joseph Bédier
Editora: WMF Martins Fontes
Páginas: 168 (2012)
Preço: R$ 42 (disponível em sebos virtuais a partir de R$ 15)
