“O remorso de Baltazar Serapião” é o segundo livro de Valter Hugo Mãe, nome artístico de Valter Hugo Lemos, escritor, artista plástico e cantor português, nascido em Saurimo, Angola, em 1971.
O romance, originalmente publicado em 2006, levou o autor a vencer o prestigiado Prêmio Literário José Saramago, de 2007, e fez com que ganhasse projeção em Portugal e mundo afora.
Foi nessa ocasião que Saramago disse que a escrita de Valter era um “tsunami linguístico, estilístico, semântico, sintático”. Mais tarde, o escritor brasileiro Raduan Nassar afirmaria tratar-se de “um livro diferente” ao dizer: “basta ler a primeira página, a primeira palavra, sentir a primeira respiração”.
Enquanto leitora, percebo ambos os traços destacados pelos autores a respeito desse romance curioso. Trata-se de uma narrativa que muito me lembrou o estilo de Guimarães Rosa. Aliás, o próprio Valter Hugo pontua sua admiração pelo escritor mineiro e apreço pela estética rosiana.
Destaco, a esse respeito, a questão da linguagem: um parto da língua portuguesa, como assinalou Nassar – um nascimento de si mesma a explorar suas possibilidades. Por outro lado, há a história que se tece a partir de um tempo/espaço pouco determinado e atinge dimensões míticas.
“O remorso de Baltazar Serapião” é um romance denso, que se passa em um Portugal arcaico, de cenário rural, espaço de sobrevivência bruta, relações interpessoais marcadas pela violência e pelo patriarcado extremo.
Acompanhamos, na narrativa, Baltazar Serapião, personagem de origem humilde, que vive em uma aldeia supersticiosa, onde reina a ignorância. O conflito central gira em torno do relacionamento entre Baltazar e Ermelinda.
A extrema beleza da jovem que será sua esposa é vista, pelo protagonista, como uma espécie de maldição, uma tentação perigosa naquele ambiente embrutecido, onde as relações de poder se exercem com arbitrariedade feroz.
O romance narra o declínio psicológico de Baltazar Serapião, que caminha da paixão ao remorso. Nessa trajetória, acompanhamos seu ciúme doentio e o exercício de um controle absoluto sobre Ermelinda por meio da força.
Dentro da lógica deformada de Baltazar, a única maneira de proteger a esposa do olhar alheio – e manter sua posse sobre ela – é destruir sua beleza física. Desse modo, o romance nos mostra o amor se transformar em tortura e a proteção – de si e do outro – se tornar aniquilação. Nesse processo, a natureza animal do homem, em constante tensão com sua busca por transcendência e espiritualidade, resulta em uma falha reiterada.
“O remorso de Baltazar Serapião” consolidou Valter Hugo Mãe como uma das vozes mais originais da literatura contemporânea em língua portuguesa. Um autor que experimenta com o estilo e a linguagem e se mostra um grande contador de histórias. Recomendo!
