Há 37 anos, a cearense Ana Miranda (1951-) estreou em grande estilo na literatura brasileira. Ela publicou, então, o romance “Boca do Inferno”, que lhe garantiu o Prêmio Jabuti na categoria Autora Revelação em 1990.
Bastante celebrado, “Boca do Inferno” é uma narrativa do gênero histórico, elaborada a partir de extensa e rigorosa pesquisa bibliográfica. Em acordo com tendências da pós-modernidade, o romance revisita fatos e personalidades do passado em um processo de (re)leitura da história.
A trama se passa na Salvador do final do século XVII, um local retratado como repleto de desmandos e corrupção. Miranda recria ficcionalmente a cidade do período e nela faz circular personalidades do Brasil Colônia, trabalhando com cuidado os pontos de contato entre a ficção e os fatos documentados.
O enredo de “Boca do Inferno” baseia-se em um evento verídico: a disputa pelo poder centrada no conflito mortal que opôs o governador Antônio de Souza Menezes, o temível Braço de Prata, e o grupo liderado por Bernardo Vieira Ravasco, do qual faziam parte seu irmão, o padre Antônio Vieira, e o poeta Gregório de Matos.
Destacamos aqui o personagem de Gregório de Matos, cuja alcunha dá título ao romance. Poeta de projeção de nossa colônia, ele foi (e é) figura polêmica. Sobre ele há especulações diversas, principalmente sobre sua biografia turbulenta – boemia, vida libertina, prisão, exílio – e a autoria de suas obras.
O que Ana Miranda faz em seu romance é transpor o caráter controverso, dual e transgressor de Gregório de Matos para a sociedade da época, espelhando a estética e a estrutura sociopolítica do Barroco colonial baiano.
O "Boca do Inferno", de Miranda, ferino e agudo, circula pelos mais diversos estratos da Salvador do século XVII. Retratado em sua atividade social, política, literária, religiosa e individual, ele surge à margem do sistema que faz dele um poeta andarilho a cantar o desconserto da colônia.
A autora rearticula, assim, certo discurso fundador do país a partir de um personagem que surge como um dos iniciadores de uma cultura literária brasileira. A formação intelectual de Gregório de Matos deu-se na metrópole, mas sua atuação ganha vida no Brasil — lugar onde a cultura europeia, embora imposta pela força, acabou inevitavelmente deglutida e transformada pela crudeza e pelo hibridismo da realidade colonial.
“Boca do Inferno” é um romance de enorme importância para a literatura brasileira contemporânea. Ele marca a consagração do romance histórico de alta densidade estética em nossas letras.
Ana Miranda consegue recriar um contexto híbrido e contraditório, problemático em termos sociais e jurídicos, marcado pela desigualdade e do qual desponta a poesia corrosiva de Gregório de Matos, que ressoa feito uma voz vinda dos infernos. Decididamente, um clássico que merece ser lido!
