“O perigo de estar lúcida” transita entre o ensaio, a autobiografia e a pesquisa científica. Publicado em 2022 pela escritora e jornalista espanhola Rosa Montero (1951), o livro mostra uma autora empenhada em discutir conexões entre a criação artística, a saúde mental e, em última instância, a própria loucura.
Montero parte de um fato: muitos escritores, poetas e artistas ao longo da história sofreram com ansiedade, depressão, surtos psicóticos, dependências – de álcool ou drogas, por exemplo – e, em alguns casos, morreram por suicídio. Existiria uma conexão entre o trabalho criativo e a saúde mental?
A experiência pessoal da autora estimulou, segundo afirma, a pesquisa que empreendeu por anos. Ela mesma sofreu com aterrorizantes ataques de pânico na juventude. Escrever foi uma maneira de organizar suas próprias vivências e sentimentos.
Ao longo de mais de 200 páginas, Montero aborda trajetórias conturbadas de autores incríveis, analisando episódios das vidas de figuras como Sylvia Plath, Virginia Woolf, Emily Dickinson e Ernest Hemingway.
Sylvia Plath merece bastante atenção de Montero. Poeta norte-americana talentosa, ela lutou contra a depressão e o medo de enlouquecer desde a adolescência. Plath é um dos exemplos mais contundentes utilizados pela autora para ilustrar a relação entre o processo criativo, a autoexigência e a vulnerabilidade psíquica.
Com linguagem fluida e envolvente, Montero afirma que, de acordo com a neurociência e a psicologia, o funcionamento do cérebro criativo apresenta aspectos neurais ligeiramente diferentes da norma.
A mente criativa opera na instabilidade: o escritor precisa de uma confiança quase desmedida para criar um universo do nada, mas é constantemente assombrado por uma insegurança profunda sobre o valor do seu trabalho e da sua própria existência.
A criatividade exigiria uma espécie de "desconexão" com a realidade para ver o mundo sob novos ângulos. Porém, esse mesmo mecanismo pode expor o indivíduo a crises: "O cérebro criativo tem uma permeabilidade excessiva. É como se faltasse a ele uma camada de pele, ou como se os filtros de controle que impedem a entrada do ruído do mundo fossem defeituosos. Entra tudo: as cores mais intensas, as dores mais distantes, as conexões mais improváveis. Essa tempestade de dados é o que permite escrever um romance maravilhoso; mas, se a tempestade não virar arte, ela vira loucura."
A arte é, assim, uma ferramenta de sobrevivência: “Escrever é uma tentativa de colocar ordem no caos, de criar um esqueleto para suportar o peso da existência”.
Não pense que “O perigo de estar lúcida” é um livro que interessa somente a escritores e artistas. Podemos dizer que ele é um ensaio sobre a condição humana e a nossa necessidade constante de dar sentido à vida. Uma excelente leitura!
