Em 2001, o sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017), uma referência nos estudos sobre a pós-modernidade, publicou “Modernidade Líquida”, livro que se tornou um marco entre os mais de 50 títulos que escreveu.
Apesar de ser uma produção acadêmica, a linguagem e a estrutura de “Modernidade Líquida” o tornaram uma espécie de best-seller mundial. As ideias que veicula foram amplamente difundidas e se tornaram familiares sem que nos déssemos conta de sua origem.
O conceito de modernidade líquida é desenvolvido por Bauman em contraposição ao que ele chama de modernidade sólida. Esta corresponderia ao período que se estende da Revolução Industrial até meados do século XX e seria marcada pela estabilidade.
As instituições sociais, as estruturas e os valores eram pautados pela rigidez e pela previsibilidade, o que assegurava às pessoas a sensação de segurança a partir de um horizonte de expectativas claras.
No entanto, essa maneira de lidar com os fatos do mundo teria se tornado pesada demais. Um dos elementos deflagradores dessa mudança seria o ritmo acelerado do capitalismo global, que, para continuar crescendo, requer velocidade e flexibilidade.
O sólido cedeu, então, espaço ao líquido, que se transforma, se molda e se ajusta com facilidade ao que encontra. Vivemos em um mundo de rápidas transições. Novas realidades se impõem enquanto as antigas simplesmente escoam.
A modernidade líquida é marcada pelo efêmero. Não há mais a expectativa de um emprego para a vida toda. As relações interpessoais são fluidas. Os utensílios são feitos para serem substituídos por outros em pouco tempo. Aliás, o próprio indivíduo é estimulado a se reinventar face ao novo que o atropela em ritmo acelerado.
Esse mundo líquido dá uma liberdade sem precedentes ao sujeito, que se vê constantemente estimulado à renovação. Porém, esse cenário produz insegurança ao dar origem a laços humanos mais frágeis e à busca pelo prazer momentâneo.
É importante pontuar que Bauman nos mostra que, nas duas situações, somos pressionados e acuados pelo meio: “nenhum molde foi quebrado sem que fosse substituído por outro; as pessoas foram libertadas de suas velhas gaiolas apenas para serem admoestadas e censuradas caso não conseguissem se realocar (...)nos nichos pré-fabricados da nova ordem”.
O insight de Bauman, segundo os críticos, é o de que, derretida a solidez anterior, os compromissos a longo prazo se tornaram um fardo e a flexibilidade deu lugar à incerteza e ao individualismo voraz, abrindo espaço para uma enorme ansiedade e para o que ele chama de “medo líquido” e “angústia da incerteza”.
O livro “Modernidade Líquida” faz com que reconheçamos nosso tempo e a nós mesmos em suas páginas. Talvez por isso tenha encontrado tantos leitores e dado margem a tantos debates desde que foi lançado!
