Pouco se sabe da vida de William Shakespeare. A carência de registros produziu especulações ao longo do tempo. A de que o seu nome seria o pseudônimo de algum nobre, ocultaria a figura de uma mulher ou seria, ainda, utilizado por vários escritores.
Ninguém duvida da existência de Shakespeare, hoje. Detalhes de sua vida, porém, permanecem bastante obscuros. O romance que deu origem ao filme “Hamnet”, o qual estará presente no Oscar, ao lado de “O agente secreto”, é uma ficção histórica que parte de algumas certezas sobre a vida do dramaturgo.
Shakespeare teve um casal de gêmeos com Anne Hathaway. O garoto se chamava Hamnet e morreu aos 11 anos. O autor estava, então, em Londres. Vivia longe da família, e os estudiosos debatem se há relação entre a peça e o nome da criança, visto que não há prova documental.
A questão é que o filme me trouxe à mente um livro que apreciei muito ler. Trata-se de um ensaio escrito pelo professor da Universidade de Columbia, James Shapiro (1955-), realizado a partir de extensa e criteriosa pesquisa.
“1599: um ano na vida de William Shakespeare”, apesar da origem acadêmica, é um livro escrito em linguagem fluida e concebido para todos que se interessam pela obra do dramaturgo de Stratford.
1599 foi um ano crucial para o desenvolvimento artístico de Shakespeare. Tinham se passado 3 anos da morte de Hamnet e ele ainda não havia composto Hamlet.
A rainha Elisabeth I estava idosa e não tinha herdeiros. A Armada Espanhola se aproximava de Londres. Havia um constante clima de insegurança, traidores e espiões estavam por toda parte e eventualmente eram enforcados em público, seus corpos, expostos à beira do Tâmisa.
O ano começou agitado para Shakespeare. Sua companhia teatral, a Lord Chamberlain’s Men, atuava no The Theatre. O terreno era alugado e, quando o contrato terminou, Giles Allen se recusou a renová-lo. Queria tomar posse da estrutura do teatro alegando que havia sido construído em terreno seu.
Na noite de 29/12/1598, Giles estava fora da cidade. A companhia, liderada por Shakespeare, contratou um carpinteiro e doze homens que desmontaram o prédio e o transportaram pelo Rio Tâmisa congelado. Construíram, com sua estrutura, o Globe Theatre, inaugurado em 1599.
O fato abre o livro de Shapiro, que narra o ano mais extraordinário da vida do dramaturgo. Foi em 1599 que Shakespeare se tornou sócio do teatro e ganhou estabilidade financeira, escreveu “Henrique V”, “Júlio César”, “Como Gostais”, o primeiro rascunho de “Hamlet”.
Em 1599 ele se tornou o “inventor do humano”, maduro na abordagem dos dilemas morais e psicológicos profundos que marcaram seus personagens e suas tramas mais famosas. Trata-se de um livro incrível para quem gosta de história e de biografias.
E... semana que vem eu volto com “Hamlet”!
