“Charneca em flor” é considerada a obra-prima da poeta portuguesa Florbela Espanca (1894-1930). Publicado originalmente em janeiro de 1931, a coletânea, uma obra póstuma, contava, então, com 56 sonetos e seguia os planos que Florbela deixou.
A segunda edição da obra, porém, lançada em março do mesmo ano, foi ampliada. 28 poemas inéditos, encontrados após a morte da autora, foram acrescentados ao volume, que passou a reunir 84 belíssimos sonetos.
A poética de Florbela Espanca me impressiona sempre. Sua enorme força estética, o profundo teor confessional, absolutamente transgressor para a sua época, a paixão desmedida contida no rigor preciso da métrica são traços que agregam singular originalidade ao seu trabalho.
“Charneca em flor” traz sonetos em sua maioria escritos em versos decassílabos heroicos (10 sílabas poéticas com acentuação na 6.ª e na 10.ª) que fascinam por este contraste: a forma clássica, tradicional e rígida, em composição com a força emocional, as imagens intensas e ousadas, que vazam suas barreiras pouco flexíveis.
A poética de Florbela Espanca tem teor erótico, o que rompe com a tradição na qual está inserida. Aliás, Florbela transita em meio a ela, traçando diálogos com outras formas poéticas, caso do soneto “Passeio ao campo”, em que retoma a tradição trovadoresca das cantigas de amor e de amigo: “Meu Amor! Meu Amante! Meu Amigo! / Colhe a hora que passa, hora divina, / Bebe-a dentro de mim, bebe-a comigo!”.
Girando quase sempre em torno do eu (algo narcísico?), os versos de Florbela, pedaços de vida, segundo dizia, expressam a busca por um amor pleno e vital, um encontro visceral e profundo: “Eu tenho, Amor, a cinta esbelta e fina... /Pele doirada de alabastro antigo... /Frágeis mãos de madona florentina.../- Vamos correr e rir por entre o trigo!”.
A natureza tem papel crucial em seus versos. A charneca, com sua vegetação típica, plantas rasteiras e arbustos baixos que se adaptam a condições pouco favoráveis de florescimento em solos arenosos e pobres em nutrientes, não é um simples cenário para o seu cantar, mas uma extensão de seu corpo e de sua alma que se une de maneira panteísta ao meio natural: “Há rendas de gramíneas pelos montes... /Papoilas rubras nos trigais maduros... /Água azulada a cintilar nas fontes... /E à volta, Amor... tornemos, nas alfombras /Dos caminhos selvagens e escuros, /Num astro só as nossas duas sombras!...”
A poética de Florbela Espanca mostra consciência estética impecável. “Passeio ao campo”, publicado na primeira versão de “Charneca em flor”, impressiona pela construção melodiosa, o convite despudorado à figura masculina para correr junto dela em busca de um encontro pleno e quase místico. Apenas um exemplo de um livro arrebatador. Deixo aqui o convite para lerem a obra, que está disponível em Domínio Público!
