“Berta Isla” é um aclamado romance do prestigiado escritor e tradutor espanhol Javier Marías (1951-2022). Publicado originalmente em 2017 em Madri, o livro foi traduzido para dezenas de idiomas e angariou admiradores mundo afora.
Os méritos do romance são muitos. A prosa reflexiva, marcada por digressões densas, é fluida e envolvente. A abordagem do período histórico – a Guerra Fria – é profunda e interessante. O enredo é original e traz uma perspectiva intimista que se projeta em meio ao todo na medida certa.
Berta Isla e Tomás Nevinson se conhecem em Madri nos anos 1960, ainda na escola, e projetam o futuro juntos. Tomás, que se destaca pela facilidade incrível de aprender línguas e sotaques, é filho de pai britânico e mãe espanhola e vai para Oxford cursar a universidade.
Lá, ele leva uma vida tranquila quando, prestes a se graduar, se envolve em um incidente de ordem legal que pode levá-lo à prisão. Assediado pelo MI6 e sob chantagem, ele ingressa no serviço de inteligência britânico.
De volta à Espanha, Nevinson e Berta se casam em 1974 e ele assume um cargo de fachada na embaixada, de onde passa a se ausentar por longos e misteriosos períodos. Ele esconde a verdade de Berta o quanto pode, mas se vê obrigado a lhe revelar que é um espião diante de um imprevisto perigoso.
A questão é que Berta, por mais que não concorde, deve aceitar o fato de que não pode nem deve lhe fazer perguntas. A vida do casal é, assim, construída sobre fissuras: o segredo, as ausências e a constante espera.
Muito embora o nó dramático se relacione a Tomás, é a perspectiva de Berta que predomina na narrativa. De Tomás fica, para ela e para nós, o enigma de sua vivência e o vazio que ela deixa.
Em “Berta Isla”, Marías subverte o enredo tradicional do romance de espionagem. A ação, o glamour e a aventura cedem espaço para o tom reflexivo e existencial. Em foco estão os mistérios da vida doméstica, as questões de identidade e os limites de conhecer o outro.
Javier Marías utiliza a figura do espião para construir um ensaio ficcional sobre a dúvida e a vigilância. A dimensão moral é um dos aspectos centrais da obra. O serviço secreto funciona, no romance, como um laboratório ético para problematizar as fronteiras entre a virtude e a vilania.
Ao assumir múltiplas identidades e atuar sob disfarces, Nevinson engana os alvos, mas corrompe a própria noção de verdade. Do lado de Berta, há a solidão mergulhada em um dilema moral, tornando-a cúmplice de um mundo de mistério e violência.
O sucesso do livro fez com que Marías escrevesse “Tomás Nevinson”, livro que funciona como espelho de “Berta Isla” e dá conta da vida secreta do agente. Foi a última obra que publicou antes de morrer, em 2022, vítima da Covid-19.
“Berta Isla” é um livro sensacional. Recomendo!
