“Admirável mundo novo”, romance do escritor inglês Aldous Huxley (1894-1963), publicado em 1932, é o primeiro daquelas que são consideradas as três grandes distopias literárias do século XX.
A ele soma-se “1984”, de George Orwell (1903-1950), publicado em 1949, e “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury (1920-2012), de 1953.
A distopia, gênero que mantém forte conexão com a ficção científica, traz sociedades imaginárias que costumam estar sob o controle totalitário, em ambientes que implicam a vigilância constante e a perda da individualidade.
As distopias são construções alegóricas que trazem crítica social e política. Ao ficcionalizarem um futuro sombrio e pouco desejável, elas funcionam como um alerta.
Este é o caso de “Admirável mundo novo”, narrativa que nos apresenta um cenário futurista, fruto da engenharia social, e que se apoia no uso da tecnologia para produzir e controlar a felicidade e o bem-estar da população.
A obra nos traz uma sociedade demarcada pelo lançamento do “modelo T” por Henry Ford em 1908, um símbolo da industrialização. A história que lemos se passa no ano de 632 d. F., que corresponderia, assim, ao ano de 2540 d.C.
A Terra está, então, dividida em dez regiões administrativas e tem população de dois bilhões de pessoas. Estas estão divididas em castas, cujos traços são definidos pela engenharia genética. É nos laboratórios que são projetados aqueles que terão papel braçal ou intelectual na sociedade.
Sob o slogan “Comunidade, identidade e estabilidade” não há espaço para a surpresa ou para o imprevisto. O mal-estar e a eventual angústia que permeiam o humano são facilmente resolvidos com doses de Soma, uma espécie de droga que produz felicidade e alheamento.
As férias podem ser gastas nos lugares os mais exóticos. Dentre eles, o Novo México, que conta com uma comunidade de “selvagens”, pessoas que ficaram fora desse mundo organizado pós-Ford.
É lá que o psicólogo Bernard Marx, em férias com a bela Lenina Crowne, conhece John, um selvagem filho de uma mulher civilizada a qual se perdeu na reserva. Disposto a realizar um experimento, ele os leva para Londres.
A chegada de John ao “mundo novo” provoca um misto de fascínio e horror. O selvagem é visto com uma aberração que todos querem ver e conhecer. Ele é uma curiosidade. Alguém que cita coisas estranhas como versos de Shakespeare.
Aliás, o título do romance vem de uma de suas tragédias, “A Tempestade”, que é citada por John: “Oh, maravilha! (...) Como há, aqui seres encantadores! Como é bela a humanidade! (...) Oh, admirável mundo novo...”.
É claro que o “mundo novo” terá efeito devastador no selvagem. É obvio, ainda, que estamos em face de um clássico assombroso, nos mais diversos sentidos do termo, e que deve ser lido!
