“A visão das plantas” (2019) é um pequeno romance da escritora portuguesa, nascida em Angola, Djaimilia Pereira de Almeida (1982-). Digo pequeno por ter apenas 85 páginas, mas é certamente enorme na envergadura e na proposta estética.
Considerada uma das vozes mais originais e vigorosas da literatura contemporânea em língua portuguesa, Djaimilia se mudou, ainda bem criança, de Luanda para os arredores de Lisboa, onde cresceu e estudou.
A trajetória da autora é, assim, marcada pelo trânsito entre geografias e culturas, o que deixa fortes traços em sua escrita. Sua obra explora temas como identidade, memória, a experiência da diáspora, o pós-colonialismo e o racismo.
Além de escritora, Djaimilia é professora com forte formação em Teoria da Literatura, o que lhe permite aliar o rigor intelectual à prosa poética sensível que desafia as fronteiras entre o ensaio e o romance.
Narrativa breve, mas monumental, “A visão das plantas” é ambientada no século XIX e traz a história do fim da vida de Celestino, ex-capitão de um navio negreiro que regressa, na velhice e em pleno declínio físico, à sua aldeia em Portugal, sem saber “que havia de fazer aos seus dias, agora que estava perto do fim”.
A antiga casa dos pais, mortos há anos, é um cenário arruinado pelo abandono: “coberta de heras, como de barbas, confundia-se com o quintal que, apesar do abandono, teimava em apontar na direção do Sol e namorava os muros”.
Depois de uma vida dedicada ao brutal tráfico de pessoas, com longas barbas brancas e a caminho da cegueira, Celestino se dedica a cuidar do local e, em especial, das plantas. No quintal, ele constrói um belíssimo e hipnótico jardim.
Essa espécie de ecossistema particular é cultivada à margem de toda a decadência que permeia aquele espaço. Lá, ele busca paz em meio às lembranças, aos pesadelos e aos fantasmas que emergem de sua vivência em alto-mar e que não o abandonam jamais: “a presença da velha escrava instalava em casa um perfume só habitado pelo som do vento. [... Como era bom para Celestino ter companhia”.
O romance não tem uma linearidade temporal estrita. Os fatos vividos invadem o presente obsessivo de cuidados com a natureza, trazendo histórias e personagens do passado que o fazem conviver, no silêncio do jardim, com as atrocidades cometidas. Há, assim, a crueldade de sua história, que se contrapõe à beleza inerente e involuntária das plantas que crescem em direção ao sol.
“A visão das plantas” é um romance escrito em uma prosa poética densa, sensível e quase sinestésica: “Da rua, entrava o perfume dos cardos ao sol, pressentia a seiva chegando à flor, leitosa e adstringente”. Uma das leituras obrigatórias para o vestibular da Fuvest, ele oferece uma reflexão profunda sobre a culpa, a solidão, a crueldade humana, a finitude e a beleza. Uma excelente leitura!
