Antoine Roquentin, um historiador na casa dos 30 anos, recolhe-se em Bouville para realizar um trabalho: pesquisar sobre a vida de um nobre local, o Marquês de Rollebon, e escrever sua biografia.
Em busca de material para o livro, ele mergulha na vida do Marquês do século XVIII. Regrada e rotineira, porém, ela não o impressiona. Rollebon teve uma existência pouco autêntica e bastante afeita ao que esperavam dele. Roquentin percebe que aquele nobre foi uma espécie de personagem de si mesmo.
Com o tempo, ele se desinteressa pelo trabalho e se volta para a cidade. Desiste do projeto. A função de retratar a existência do outro não o empolga. Roquentin renuncia a se subordinar ao “real”. Resolve, então, escrever uma ficção na tentativa de exercer a liberdade por meio da escrita criativa.
Esses elementos são parte do enredo de um livro que Sartre chamou de “Melancolia”, mas que seu editor exigiu que se chamasse “A náusea”. Além de mais palatável ao mercado editorial, o título recupera, de maneira certeira, um elemento-chave do romance. A sensação experimentada pelo protagonista quando se dá conta de certo vazio da existência.
Sabemos que Sartre, além de ficcionista, era filósofo existencialista, e a questão da contingência e da gratuidade da vida estão na base dessa linha de pensamento. Essas questões, discutidas em “A náusea”, publicado em 1938, serão retomadas e desenvolvidas em “O ser e o nada”, seu maior tratado filosófico.
Deve ser dito, porém, que seu primeiro romance passou por várias modificações até que tomasse a forma que hoje encontramos. Sua primeira versão teria sido classificada pela companheira, Simone de Beauvoir, como um tratado e não uma ficção. Era necessário que Sartre se dedicasse aos personagens e à trama.
A maneira como o romance foi composto é interessante. “A náusea” tem forma de diário, estratégia muito bem articulada para justificar o texto. O que lemos teria sido encontrado e publicado sem alterações, o que lhe dá ares de realidade.
Merece ser mencionado, ainda, o caráter um tanto cinematográfico do romance. Veja que ele conta, inclusive, com cenas de teor surrealista que apontam para a desorientação de Roquentin com relação ao mundo referencial, mergulhado que estava na gratuidade do existir frente ao nada que poderia estar no seu lugar.
O gênero romanesco perfeito, de acordo com Roquentin, seria o romance policial. Nele, tudo tem uma função sob inteiro domínio do autor. A vida não é assim. Não vemos o sentido surgir, um grande desfecho ou simplesmente o fim de uma história bem contada.
“A náusea” é um livro incômodo. É proposto, ao leitor, um encontro com algumas desrazões do existir. Uma reflexão sobre a gratuidade dos fatos do mundo. A autenticidade do ser que se esvai sem que se perceba. A renúncia à liberdade de ser si mesmo. Um clássico!
