Há uma relação simbiótica entre corpo e território, tanto no sentido do corpoterritório quanto do território-corpo (terra), especialmente na ótica dos povos originários e negros numa perspectiva latino-americana a partir do pensamento decolonial, relativas às vivências e práticas, no modo do “uso” e de seu valor simbólico e holístico.
Contrapondo as geografias de matriz eurocêntrica e hegemônica que reduzem o território a política econômica, na América Latina o território é compreendido a partir de suas identidades e seu uso como instrumento de luta e de transformação social. Historicamente, a expansão territorial vinculada à herança de um modelo capitalista extrativista, moderno-colonial de devastação e genocídio, baseado em exploração de grupos considerados subalternos, especialmente os povos originários e negros, está atrelada a ocupação coercitiva dos espaços, desrespeitando os territórios-mundo, o pluriverso cultural-natural, a ancestralidade e saberes.
O conflito existente a partir do corpo como território se materializa no pensamento decolonial, que entende as ocupações territoriais considerando as bases espaço-temporais, geográficas, históricas, econômicas, políticas e sociais. O território físico e o simbólico se interconectam, com abrangência individual e coletiva, testa os limites das relações de poder, do racismo, do patriarcado, da desigualdade de gênero e outras formas de opressão que se manifestam afetando a saúde e a vida das pessoas, uma vez que o lugar de cada um não é aleatório, mas pré-determinado por circunstâncias que se consolidaram a partir de narrativas de controle.
Na visão clássica, o território material consiste numa área delimitada, já o imaterial dá voz ao corpo, é espaço de vivência, luta, resistência e experiência. O poder se apropria do corpo-território, impõe sua lógica e colhe os frutos das manutenções do “estatus quo”. Faz-se necessário uma revolução na compreensão e criação de experiências corporais e territoriais, pois é onde se manifestam as violências e opressões, e ao curar um, cura-se o outro.
