A violência nas cidades é um fenômeno complexo e multidimensional, impulsionado por problemas estruturais, como a segregação urbana, a falta de oportunidades e o acesso limitado a direitos básicos. Reflexo da desigualdade histórica associada à pobreza, essa relação com a violência consolidou-se no senso comum como um padrão, promovendo segregação social e violência espacial. Nesse contexto, ocorre uma invisibilidade seletiva: a pobreza é frequentemente estereotipada ora como vítima, ora como ameaça social, desconsiderando a complexidade das organizações comunitárias, dos trabalhos e dos saberes produzidos nesses territórios. A criminalidade costuma ser associada exclusivamente às periferias, embora alcance todas as esferas de poder.
O temor constante altera o cotidiano da população através de autoconfinamento, impactos na saúde mental, mudança de trajetos, receio em espaços públicos, compromete as interações e a mobilidade. Influenciando decisões relacionadas à segurança e às políticas públicas. Além disso, direciona investimentos para a criação das chamadas “cidades-fortaleza”, marcadas pelo aumento da segurança privada, por condomínios fechados e pela diminuição da convivência coletiva. A violência passa, então, a funcionar também como moduladora de comportamentos e, muitas vezes, como mecanismo de controle sobre territórios marginalizados. Os jovens continuam sendo as principais vítimas de mortes violentas, enquanto roubos, furtos e feminicídios aumentam, reforçando a percepção de insegurança.
Diante desse cenário, estudos atuais apontam a importância de um planejamento urbano mais integrador com bairros de uso misto, que favorecem a circulação constante de pessoas e estimulam uma vigilância natural das ruas. Elementos como iluminação pública eficiente, manutenção de áreas comuns e fachadas ativas fortalecem a segurança comunitária e incentivam a ocupação dos espaços públicos. A cidade é um organismo vivo, complexo e dinâmico, e ruas mais acessíveis ampliam a sensação de pertencimento e segurança da população. Nesse sentido, a arquitetura e o urbanismo podem contribuir significativamente, associadas a políticas públicas, para a redução do medo e da violência ao criar espaços que promovam convivência, diversidade, inclusão social e fortalecimento dos vínculos comunitários, diminuindo a segregação e a exclusão social.
