A expressão da dúvida existencial de Hamlet, "To be, or not to be, that is the question", atravessou séculos e tem sido reproduzida nos mais variados contextos. Nas ciências da vida, por exemplo, um impasse persiste há décadas: os vírus são ou não são seres vivos?
Dentre muitas definições, fiquemos com a mais abrangente: ser vivo é um organismo celular munido de DNA, RNA e organelas. Juntos, esses elementos habilitam o organismo a realizar metabolismo, crescer, desenvolver-se, reproduzir-se e evoluir. Inquestionável: toda entidade portadora desses atributos é um ser vivo, mas, desprovida deles, não o é! Mas e quanto àquelas situadas entre os dois extremos?
Os vírus ilustram tal condição intermediária. Considerados por muitos como não-vivos, são inertes - desde que não encontrem uma célula para parasitar -, acelulares e não têm metabolismo. No entanto, possuem material genético: uma única molécula de DNA ou de RNA (nos retrovírus), envolta por uma cápsula proteica. Seus genomas contêm poucos genes, mas podem chegar aos 2 mil nos recém-descobertos vírus “gigantes”. Neles, há informações precisas para a replicação, processo no qual o patógeno sequestra a maquinaria celular para fabricar novas cópias.
São mais abundantes do que todos os seres celulares juntos. Segundo estimativa de Roger Hendrix, de 1999, corroborada por cálculos recentes, a virosfera abriga cerca de 10³¹ partículas virais (10 nonilhões!).
Outra característica compartilhada com os seres celulares é o fato de sofrerem mutações e evoluírem por seleção natural, o que lhes permite escapar do sistema imune do hospedeiro. Afinal, vírus são ou não são seres vivos? A resposta “se não possuem células, não são” está longe de ser definitiva.
Vírus da gripe, da dengue, do sarampo, coronavírus, vírus Ebola, do mosaico do fumo, tristeza dos citros... A lista de vírus causadores de doenças parece interminável. Contudo, a visão tradicional que os reduzia a meros agentes patogênicos tem mudado. Alguns coexistem com seus hospedeiros e lhes trazem benefícios, como os retrovírus. Eles podem incorporar seu material genético ao DNA das células parasitadas e, ao longo da evolução, ter seus genes “domesticados”, passando a produzir proteínas funcionais para o próprio organismo. Notável exemplo é o ERVW-1. Derivado de uma infecção retroviral há mais de 25 milhões de anos, esse gene codifica a sincitina, proteína essencial para a formação da placenta em primatas. Cerca de 10% do genoma humano são formados por sequências genéticas remanescentes de infecções virais antigas.
Além disso, retrovírus endógenos podem “empacotar” fragmentos do DNA do hospedeiro e, quando reativados, funcionar como veículos, transferindo genes de um organismo para outro - mesmo entre espécies diferentes - em um processo chamado de transferência gênica horizontal.
Ser ou não ser vivo? Como a transição entre a matéria inerte e a viva provavelmente foi um processo contínuo em sua origem, é desafiador traçar a linha divisória entre o ser e o não ser. Consenso ainda não há! Mas há unanimidade sobre a contribuição desses parasitas obrigatórios para a origem e a evolução da vida na Terra.
* Expressão criada pelo pesquisador Patrick Forterre (2016)
