Entre coisas que me deixam fulo são intentos de adivinhar o que significam o Eu, o Ego, o Id e seres interiores. Quanto mais acho que sei, mais misteriosa a vida fica. Pergunto: Quem, de fato, é o verdadeiro o escritor ou o personagem que ele inventou para escrever esta crônica? Criaturas imateriais, mas pulsantes, vários alguéns habitam em mim e, quase sempre, identifico-me mais com eles que comigo mesmo. Seriam meus alter egos? Quem é mais verossímil, a Mulher Maravilha nascida entre as Amazonas em ilha remota e transportada ao Séc. XX como Princesa Diana, ou seus genitores artísticos, o escritor Charles Moulton (pseudônimo do psicólogo Willian Moulton) e o desenhista Harry Peter?
Pessoas civis de audazes super-heróis têm à roda de si escudos sociais que protegem seus entes imediatos, já que tudo que fazem são abnegação e amor ao próximo. Imagine se Peter Parker revelasse que ele é o Homem Aranha? Poria a namorada Mary Jane e a extremosa Tia May num fosso de angústias. Por mais que o desajeitado Clark Kent almeje revelar-se à amada Lois Lane, sabe que a poria em riscos ante os inimigos do Superman. Nem pensar em segredar-lhe que ele é também Kal-El, nascido de pais biológicos no Planeta Krypton, pais adotivos aqui na Terra, além dos artistas Jerry Siegel e Joe Schuster que o criaram em gibis. Arre, os Eus, Egos e Ids futucam minha mente! Inda bem que Dr. Freud, nas trilhas de Santo Agostinho, meteu-se nesse novelo a pensar por nós!
Sabemos que George Orwell é um pseudônimo, máscara detrás da qual se esconde o ensaísta inglês Eric Arthur Blair. Nessa furna de fingimentos, Fernando Pessoa instituiu personas literárias diferentes de si mesmo. São os heterônimos. Têm biografias próprias e, nas formas e conteúdos, estilos distintos do autor real. Alberto Caeiro, criado na roça e ligado à natureza, cursou apenas escola primária. Morreu de tuberculose aos 26 anos e, mesmo assim, tornou-se mestre dos heterônimos Ricardo Reis e Álvaro de Campos.
Imagine-se um heterônimo criticando Fernando Pessoa como alguém a refazer-se em alguéns. Talvez sejam doidices de quem suportou a Primeira Guerra às portas da Segunda! Nesse desdobrar da alma, formulou distinções entre o homem histórico e os poetas fictícios que dele saíram. Álvaro de Campos, engenheiro naval formado na Escócia, era fluente em inglês (como Pessoa que viveu dez anos na África do Sul). Pessimista, suava Tempos Modernos maquinizados. Ao modo de Pessoa a mentir “tão completamente”, Álvaro se desfazia para fazer-se: “Multipliquei-me para me sentir”.
Ricardo Reis, monarquista exilado no Brasil, era um escritor em estilos neoclássicos, puristas. Exaltava mitos greco-romanos e ideais metafísicos, divinos: “Acima da verdade estão os deuses”, escrevera. Modernista, é certo que também pensava que os clássicos não envelhecem porque formulam questões vitais perenes. Enfim, em labirintos, os heterônimos (e também Pessoa) unem-se no querer deslindar as coisas do eu. E param por aí, hoje e sempre: “Que sei eu o que serei / eu que não sei o que sou?”.Entre coisas que me deixam fulo são intentos de adivinhar o que significam o Eu, o Ego, o Id e seres interiores. Quanto mais acho que sei, mais misteriosa a vida fica. Pergunto: Quem, de fato, é o verdadeiro o escritor ou o personagem que ele inventou para escrever esta crônica? Criaturas imateriais, mas pulsantes, vários alguéns habitam em mim e, quase sempre, identifico-me mais com eles que comigo mesmo. Seriam meus alter egos? Quem é mais verossímil, a Mulher Maravilha nascida entre as Amazonas em ilha remota e transportada ao Séc. XX como Princesa Diana, ou seus genitores artísticos, o escritor Charles Moulton (pseudônimo do psicólogo Willian Moulton) e o desenhista Harry Peter?
Pessoas civis de audazes super-heróis têm à roda de si escudos sociais que protegem seus entes imediatos, já que tudo que fazem são abnegação e amor ao próximo. Imagine se Peter Parker revelasse que ele é o Homem Aranha? Poria a namorada Mary Jane e a extremosa Tia May num fosso de angústias. Por mais que o desajeitado Clark Kent almeje revelar-se à amada Lois Lane, sabe que a poria em riscos ante os inimigos do Superman. Nem pensar em segredar-lhe que ele é também Kal-El, nascido de pais biológicos no Planeta Krypton, pais adotivos aqui na Terra, além dos artistas Jerry Siegel e Joe Schuster que o criaram em gibis. Arre, os Eus, Egos e Ids futucam minha mente! Inda bem que Dr. Freud, nas trilhas de Santo Agostinho, meteu-se nesse novelo a pensar por nós!
Sabemos que George Orwell é um pseudônimo, máscara detrás da qual se esconde o ensaísta inglês Eric Arthur Blair. Nessa furna de fingimentos, Fernando Pessoa instituiu personas literárias diferentes de si mesmo. São os heterônimos. Têm biografias próprias e, nas formas e conteúdos, estilos distintos do autor real. Alberto Caeiro, criado na roça e ligado à natureza, cursou apenas escola primária. Morreu de tuberculose aos 26 anos e, mesmo assim, tornou-se mestre dos heterônimos Ricardo Reis e Álvaro de Campos.
Imagine-se um heterônimo criticando Fernando Pessoa como alguém a refazer-se em alguéns. Talvez sejam doidices de quem suportou a Primeira Guerra às portas da Segunda! Nesse desdobrar da alma, formulou distinções entre o homem histórico e os poetas fictícios que dele saíram. Álvaro de Campos, engenheiro naval formado na Escócia, era fluente em inglês (como Pessoa que viveu dez anos na África do Sul). Pessimista, suava Tempos Modernos maquinizados. Ao modo de Pessoa a mentir “tão completamente”, Álvaro se desfazia para fazer-se: “Multipliquei-me para me sentir”.
Ricardo Reis, monarquista exilado no Brasil, era um escritor em estilos neoclássicos, puristas. Exaltava mitos greco-romanos e ideais metafísicos, divinos: “Acima da verdade estão os deuses”, escrevera. Modernista, é certo que também pensava que os clássicos não envelhecem porque formulam questões vitais perenes. Enfim, em labirintos, os heterônimos (e também Pessoa) unem-se no querer deslindar as coisas do eu. E param por aí, hoje e sempre: “Que sei eu o que serei / eu que não sei o que sou?”.
ROMILDO SANT’ANNA
Jornalista, escritor, pesquisador aposentado da Unesp, Rio Preto
@romildosantanna
