É comum encontrar, nas redes sociais, diante de episódios da vida, como crimes, pecados mundanos ou simples desacertos humanos, condenações sumárias fundadas em moralismos ou em ideologias orgânicas que não admitem falhas, erros ou desvios alheios. Para aqueles que lidam cotidianamente com dramas humanos dos mais variados matizes; para quem, não raro, reconhece no desacerto do outro um espelho de si mesmo; e para quem, diante da constatação do próprio desatino, roga por uma reforma no Tribunal, é instrutivo observar o teclado rigoroso e intolerante dos jurados puritanos da web. Terão esses jurados refletido sobre a complexidade e a cindibilidade da condição humana? Estão convencidos de que se bastam em inteligência e perspicácia para compreender qualquer fato? Enxergam na intransigência o principal instrumento de correção da existência?
Um dos mais famigerados vilões dostoievskianos aceitou um casamento em troca da quitação de suas dívidas e tornou-se, depois, suspeito de envenenar a própria mulher e de instigar o suicídio de um ou dois empregados. Após a morte da esposa, tentou estuprar uma antiga criada, movido por uma obsessão delirante, e sonhou, beirando a pedofilia, com uma criança de cinco anos. Svidrigáilov, esse personagem abjeto, antes de dar cabo da própria vida, custeou um bom orfanato para três crianças órfãs e miseráveis, deixou considerável quantia à família de uma menina de quinze anos cuja mãe, cinicamente, pretendia “vendê-la” em matrimônio e destinou outra soma para que uma jovem abandonasse a prostituição; doação que também lhe permitiria cuidar de um rapaz por quem se apaixonara, condenado à Sibéria, de modo que, amparado, pudesse buscar a redenção de seus crimes.
A apresentação desse sujeito cindido, lúgubre e, ao mesmo tempo, benevolente não tem, por óbvio, o propósito de despertar a comiseração. Serve, antes, à provocação, pois, como demonstra a literatura, a vida de uma pessoa é sempre mais complexa do que aparenta. Imagine-se, então, o que significa tecer juízos sobre uma existência conhecida apenas por mínimas frações expostas nas redes sociais, recortes incapazes de refletir sua verdadeira amplitude. Só isso já basta para indicar que a prudência é indispensável a quem se dispõe a divulgar fatos, comentá-los ou proferir julgamentos públicos na internet, com potencial para prejudicar seriamente a vida de alguém.
Acreditar cegamente em postagens e reproduzi-las de modo maquinal pode ser extremamente perigoso. Em 2014, uma mulher inocente foi espancada e morta por populares no Guarujá após uma falsa acusação, amplamente difundida pelo Facebook, de que sequestrava crianças. Do mesmo modo, adotar uma postura solipsista, emitindo juízos censórios fundados única e piamente na própria visão de mundo, constitui forma especialmente arriscada de avaliar os fatos. Exigem-se cautelas, sobretudo diante das sutilezas da inteligência e das deduções abstratas da razão. É preciso cuidado para que elas não alimentem uma sedução narcísica no julgador, a ponto de levá-lo, por algum sentimento de superioridade intelectual ou espiritual, a desmerecer aquele que praticou um crime ou cometeu uma tolice, como se fosse um ignorante ou um incapaz que, pela grosseria do ato, não soube controlar os próprios impulsos. As coisas humanas não são tão simples. A realidade é, sem dúvida, um dado imprescindível, mas, de quando em quando, os cálculos mais sagazes fracassam por força da própria natureza humana. “De cem coelhos nunca se faz um cavalo; de cem suspeitas nunca se faz uma prova”, adverte Porfiri, o juiz de instrução de Crime e Castigo, valendo-se de um provérbio inglês para sintetizar a cautela que o julgamento exige. E acrescenta: “Mas as paixões... experimente lutar contra as paixões, porque o juiz também é homem”.
Essa é, portanto, a atualidade da literatura dostoievskiana: revelar o risco da ligeireza desses julgamentos austeros que proliferam na internet. E, se ela adverte contra a intransigência, também indica o seu contrário. “Os enganos podem sempre perdoar-se; o erro é até uma coisa boa, porque conduz à verdade; o que é para lamentar é admirar-se dos próprios erros”, diz a voz sensata de Razumíkhin, outro personagem da mesma obra. Assim, em contraste com a inflexibilidade daqueles que, nas redes sociais, distribuem censuras e condenações na crença de que podem reformar a realidade pela força de seus juízos, em Dostoiévski o perdão surge como o significado mais profundo da vida e a mais poderosa força de transformação humana.
