Você já notou que algumas pessoas parecem atrair mais mosquitos do que outras? As diferenças resultam da ecologia e do comportamento dos mosquitos hematófagos. Entender esse fenômeno vai além da curiosidade, pois cerca de 10% das mais de 3.500 espécies desses insetos transmitem doenças e representam uma séria ameaça à saúde em muitos países.
Dentre elas, o pernilongo comum (Culex quinquefasciatus) e o mosquito da dengue (Aedes aegypti) ocorrem em todo o Brasil. O Culex é vetor da filariose linfática, doença declarada eliminada como problema de saúde pública no Brasil desde 2024. Contudo, o Aedes, transmissor de dengue, zika e chikungunya, ainda representa um grande desafio.
Travamos uma batalha insana contra esses insetos, sobretudo no verão, estação com água abundante e temperaturas elevadas, condição ideal para o desenvolvimento das larvas. Semelhantes em tamanho, eles diferem em aparência e comportamento. O pernilongo é marrom, lento, mais ativo à noite e emite aquele zunido irritante ao buscar nosso sangue. Sua picada causa inchaço e coceira intensa. Já o mosquito da dengue tem o corpo preto com listras brancas, voa rápido e seu zumbido é quase inaudível; é mais ativo durante o dia, embora possa picar à noite. Em geral, não deixa marcas ou provoca prurido.
São hematófagos, mas não se alimentam apenas de sangue. Rico em carboidratos, o néctar das flores é a principal fonte de energia para machos e fêmeas. No entanto, ambas as espécies dependem de proteínas presentes no sangue humano ou de outros vertebrados – inclusive de nossos pets – para produzir ovos viáveis. Por isso, apenas as fêmeas transmitem arboviroses.
A localização de seus hospedeiros se dá mediante a percepção de uma série de sinais. Quando estão longe, as fêmeas usam o vento para rastrear potenciais alvos; nesse caso, o CO2 que exalamos é um sinal relevante, detectável a até 70 metros. Em distâncias intermediárias, a busca é guiada por pistas visuais, como a luz artificial e as cores da pele humana, perceptíveis a até 15 metros. Já a menos de dois metros, estímulos como a temperatura e os odores da pele são decisivos para o pouso.
Não há preferência por homens ou mulheres, e a atração por sangue tipo O ou B é inconclusiva. Mas o tempo decorrido desde o último banho importa: quanto mais suor acumulado, maior a atração. O Aedes prefere superfícies entre 35 e 40 °C, faixa de temperatura na qual a ação das bactérias da pele é mais intensa e há maior produção de substâncias voláteis. Esses odores são sinais químicos potentes e diferem entre indivíduos, bem como entre crianças e adultos. Desse modo, as variações nas pistas que deixamos explicam por que algumas pessoas são mais propensas a serem picadas do que outras.
Minimizar esses sinais, usá-los em armadilhas e aderir à imunização reforça a proteção individual. A combinação de medidas coletivas usuais, como o uso de larvicidas e a eliminação de água parada, com métodos inovadores, como os testados pela Fiocruz – liberação de mosquitos infectados com Wolbachia, uma bactéria comum em insetos que impede o desenvolvimento dos vírus no Aedes aegypti–, tem resultado em queda significativa nos casos de dengue, zika e chikungunya.
