Poucos prêmios possuem, no mundo acadêmico, o prestígio do Nobel de Fisiologia ou Medicina. Desde 1901, ele reconhece descobertas que modificaram a ciência e, muitas vezes, a própria história. Receber um Nobel significa mais do que consagrar um pesquisador: significa reconhecer uma contribuição que abriu novos caminhos para compreender, prevenir ou tratar doenças.
O primeiro prêmio, em 1901, foi concedido ao alemão Emil von Behring por seus trabalhos contra a difteria. Naquela época, a doença era uma das grandes causas de morte infantil. Behring demonstrou que substâncias presentes no soro de animais imunizados podiam neutralizar a toxina produzida pela bactéria da difteria. O desenvolvimento da antitoxina diftérica transformou uma doença frequentemente fatal em uma enfermidade que finalmente podia ser tratada. A utilização do soro em larga escala salvou incontáveis crianças e inaugurou uma nova era da imunologia e da terapêutica. Não por acaso, Behring ficou conhecido em sua época como o “salvador das crianças”. O próprio Comitê Nobel afirmou que seu trabalho colocara nas mãos dos médicos uma arma vitoriosa contra a doença e a morte.
Nenhum cientista brasileiro recebeu oficialmente o Nobel de Medicina, embora alguns dos maiores nomes de nossa ciência tenham sido indicados. Carlos Chagas é o exemplo mais lembrado. Descobridor da doença que leva seu nome, identificou o agente causador, o Trypanosoma cruzi, seu vetor e as manifestações da enfermidade — feito excepcional na história da medicina. Outros brasileiros também chegaram a ser indicados, entre eles Adolfo Lutz, Antônio Cardoso Fontes e Manoel de Abreu.
Mas existe um capítulo pouco conhecido que permite provocar essa história. Peter Brian Medawar, laureado com o Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1960, nasceu em Petrópolis, no Estado do Rio de Janeiro, em 28 de fevereiro de 1915, filho de pai de origem libanesa e mãe britânica. Ainda jovem seguiu para a Inglaterra, onde construiu uma extraordinária carreira científica. Passou pela Universidade de Oxford, tornou-se professor de Zoologia da Universidade de Birmingham em 1947 e, em 1951, assumiu a cátedra de Zoologia no University College London. Posteriormente dirigiu o National Institute for Medical Research.
Durante a Segunda Guerra Mundial, Medawar começou a estudar um problema decisivo: por que a pele transplantada de uma pessoa para outra era rejeitada? Suas pesquisas sobre rejeição de enxertos e tolerância imunológica adquirida estabeleceram fundamentos científicos que permitiriam o desenvolvimento dos transplantes de órgãos e tecidos. Por essas descobertas, dividiu o Nobel de 1960 com Frank Macfarlane Burnet e passou à história como um dos pais da imunologia dos transplantes.
Assim, quando afirmamos que o Brasil nunca ganhou um Nobel de Medicina, talvez seja necessário acrescentar uma ressalva. Mais do que uma curiosidade histórica, existe aí um motivo de orgulho: um homem nascido em solo brasileiro ajudou a desvendar os mecanismos da tolerância imunológica e lançou os fundamentos para a moderna medicina dos transplantes de órgãos e tecidos, procedimento que tem salvado milhares de vidas em todo o mundo.
