Edição especial do jornal ‘O Pasquim: As Grandes Entrevistas Políticas’ (1978) registra marcantes 20 anos da vida brasileira com signos coloquiais de Alceu Amoroso Lima, Sobral Pinto, Teotônio Vilela, Carlos Chagas, Darcy Ribeiro... Quem não se sensibilizou com o humanismo franciscano e devoto de Dom Paulo Evaristo Arns? Arcebispo emérito de São Paulo, formou-se em letras pela Universidade Sorbonne (Paris), e lá obteve o grau de Doutor em Comunicação. “Se o Brasil perdeu um excelente editor [de jornais, revistas], ganhou um grande cardeal” – comentou o cartunista Jaguar no pórtico da entrevista. Dom Paulo foi um dos esteios da Teologia da Libertação em auxílio aos oprimidos da América Latina. Impunha-se com a autoridade dos ilustres e um sorriso perene, acolhedor: “Humor é um sentimento cristão. Não é saber rir dos outros e, sim, rir de si mesmo” – disse.
Apresento trechos que esboçam o perfil dessa pessoa magistral. Em autoanálise, declarou: “Não consigo dormir se 42 estudantes são enquadrados na Lei de Segurança Nacional [no episódio da sangrenta invasão à Pontifícia Universidade Católica, em 1977, comandada pelo coronel Erasmo Dias]. Culpavam alunos de tramarem contra a democracia e a derrubada do governo. “Mexo com advogados, todo mundo, até que me garantam que isso não pode ser”. Com essas e outras, acusavam-no de fazer política. Contestava: “Atuo em favor do bem comum, de acordo com preceitos cristãos. Nunca fiz festa a políticos, nem a Montoro que é da PUC”.
Quando do ato ecumênico na Catedral da Sé, em memória do jornalista Vladimir Herzog, torturado até morrer em presídio em São Paulo (1975), Dom Paulo foi abordado por agentes da repressão. Relembra: “Vieram dizer que a missa era perigosa, ia escandalizar muita gente. Herzog era judeu, não católico. Eu deveria indicar presença de outro padre e não comparecer. Ao garantir que iria, disseram em ameaça que se houvesse tiroteio eu seria culpado pelas mortes”. Avisaram: “Tem mais de 500 soldados na praça para atirar logo que for dado o primeiro grito. Confirmei a ida e citei a Parábola do Bom Pastor, o que morreu por suas ovelhas. Acrescentei que não trairia minha índole cristã”. Assegurou aos leitores de ‘O Pasquim’ que em nenhum momento os manifestantes pensavam em outra coisa que não fosse um protesto pacífico.
Dom Paulo Evaristo Arns (Forquilhinha, SC, 1921-2016) teorizava: “Há diferenças entre consciência política e consciência do povo. Ambas caminham juntas, mas sem a consciência do povo não há consciência política”. Foi rigoroso ao dissertar que “a morte sociopolítica do Brasil nasce com o paternalismo dos coronéis”. Paternalismo tosco, oportunista, que revive de tempos em tempos. Diante do fato de dedicar-se dia e noite em pregações evangélicas, lecionar em faculdades e engajar-se resoluto a causas sociais, o escritor Ziraldo perguntou ao cardeal como religiosos como ele se resolviam nas relações pessoais. Respondeu com ternura: “Para nós não há problema porque vida e missão são uma coisa só. E, assim, somos felizes”.
ROMILDO SANT’ANNA
Jornalista, escritor, pesquisador aposentado da Unesp, Rio Preto
@romildosantanna
