A linguagem define nossa espécie. Com ela, adquirimos os saberes das gerações passadas, os expandimos e os passamos adiante. Admite-se que já existisse há 60 mil anos, antes da expansão paleolítica para fora da África. No entanto, não se sabe quando ela surgiu e se os humanos arcaicos também a possuíam.
Por não se fossilizar, a origem da fala só pode ser estimada por meio de evidências indiretas. Fósseis encontrados há 225 mil anos apresentam ossos da face retraídos (nos neandertais, são projetados para a frente), crânio e cérebro arredondados e laringe deslocada para baixo. Essas singularidades possibilitaram o desenvolvimento da linguagem e a produção de frequências sonoras complexas em nossa espécie. A construção de ferramentas avançadas e abrigos típicos desse período demandava pensamento simbólico. Por isso, Rob de Salle e seus colaboradores concluíram que o Homo sapiens já possuía “trato vocal e cérebro preparados para a linguagem”. Sua origem se deu no continente africano, há cerca de 135 mil anos, conforme análises genéticas lideradas pelo linguista Shigeru Miyagawa.
Os neandertais não apresentavam esses traços, mas o osso hioide, fundamental para a sustentação da língua e da laringe e para a fala articulada, era semelhante ao dos humanos. Vestígios como sepulturas, ferramentas e adereços de contas ou penas associam esses hominíneos ao pensamento simbólico. Aliados à sua expansão e à necessidade de transmitir conhecimento para sobreviverem nos ambientes inóspitos do gélido Pleistoceno, esses elementos indicam a existência de linguagem, mesmo que simples.
Por outro lado, não há evidências da origem da pluralidade linguística do Homo sapiens, mas estimativas apontam para a existência de quatro a seis milhões de falantes de até seis mil línguas na transição do Pleistoceno para o Holoceno, há 11,7 mil anos. Diante do crescimento populacional impulsionado pela invenção da agricultura, domesticação de plantas e animais e pela intensificação das migrações, podem ter surgido entre 25 e 75 mil línguas até dois mil anos atrás, segundo estimativas de Damian Blasi e sua equipe. No entanto, a diversidade diminuiu com a ascensão dos impérios, pois, junto com suas culturas, também disseminaram seus patógenos, provocando reduções populacionais expressivas. Essa tendência se intensificou nos últimos 500 anos, à medida que algumas línguas se tornaram dominantes.
Existem hoje cerca de 7.500 línguas, mas apenas 10 são faladas por cinco bilhões de pessoas (inglês, mandarim, hindi, árabe, espanhol, francês, bengali, português, russo e urdu). Tal distribuição global se deve, em grande parte, à expansão colonial europeia, bem como a motivações geopolíticas, econômicas, culturais e religiosas. Pela convergência de todos esses fatores, exceto o religioso, o inglês ocupa a primeira posição, com 1,5 bilhão de falantes.
Nesse contexto, as taxas de perda da diversidade linguística tendem a aumentar. Estima-se que quatro línguas desapareçam anualmente devido à interrupção da transmissão entre gerações e à extinção de pequenas comunidades, processo que pode ser agravado pela exclusão digital de idiomas minoritários ante as línguas dominantes na rede.
