Todo ano, quando outubro termina, a discussão reaparece: escolas organizam festas de Halloween, crianças saem fantasiadas, vitrines recebem abóboras e teias de aranha e logo surge a pergunta sobre por que celebramos uma tradição que não nasceu no Brasil. Quase sempre vem junto a recomendação de que deveríamos valorizar nosso folclore em vez de importar costumes estrangeiros.
A preocupação com a cultura brasileira é legítima. O problema talvez esteja em imaginar a cultura como um território cercado, com fronteiras que precisam ser protegidas de tudo o que vem de fora. Culturas nunca funcionaram assim. Elas circulam com pessoas, livros, filmes, músicas e línguas; encontram outras referências e, nesse movimento, são apropriadas e transformadas.
Talvez seja mais interessante observar o que acontece quando uma celebração como o Halloween chega a uma cidade como São José do Rio Preto. Para uma criança, pode ser a oportunidade de vestir uma fantasia e brincar; para quem estuda inglês, um contato com outra cultura; para uma escola, pode se tornar atividade de literatura, artes, música, história ou produção textual.
E os efeitos não terminam no portão da escola. Alguém desenha a decoração, confecciona fantasias, trabalha com maquiagem, prepara doces, monta iluminação, cuida do som, fotografa ou interpreta personagens. Lojas vendem produtos, salões recebem festas, bares e restaurantes promovem eventos. Uma referência estrangeira começa, assim, a ganhar sotaque local.
Aquilo que parecia apenas uma tradição importada passa a movimentar uma pequena cadeia de economia criativa, envolvendo artistas, professores, comerciantes, técnicos e prestadores de serviços. É uma boa lembrança de que cultura não é apenas aquilo que vemos no palco, na tela ou numa exposição. Cultura também é trabalho, conhecimento, criatividade e renda.
Uma cidade culturalmente ativa não é apenas aquela que possui grandes teatros, museus ou festivais. É também aquela em que surgem oportunidades para criar, produzir, trabalhar, participar e conviver — inclusive em torno de práticas aparentemente simples.
Nada disso significa abandonar nossas tradições. Valorizar o Saci, o Curupira, a Iara, as festas populares e as culturas indígenas, africanas e regionais não exige declarar guerra às bruxas e aos fantasmas do Halloween. Uma coisa não precisa existir às custas da outra.
Talvez, então, a pergunta devesse ser outra. Em vez de discutir apenas onde determinada manifestação nasceu, podemos observar o que fazemos com ela quando chega até nós. Se uma referência estrangeira estimula crianças a criar, escolas a ensinar, artistas a trabalhar e a cidade a produzir novas experiências, ela já não é apenas uma importação: passou a fazer parte da vida cultural daquela comunidade.
Mercadorias podem parar na alfândega; ideias, histórias, festas e imaginários, felizmente, continuam atravessando fronteiras.
