Ao visitar a Torre de Londres, não se restrinja às joias da coroa britânica ou à escultura de vidro em forma de travesseiro que sinaliza onde Ana Bolena foi decapitada. Note também os corvos que saltitam pelos gramados, residentes permanentes da fortaleza desde o reinado de Charles II (1630-1685). Segundo a lenda, ao decidir expulsá-los por obstruírem o observatório real, o monarca foi alertado sobre uma profecia que anunciava a queda da torre e da monarquia se as aves deixassem o local. Então, decretou que seis corvos deveriam permanecer ali, o tempo todo.
Hoje, Jubilee, Harris, Gripp, Rocky, Erin, Poppy e Merlina - na reserva - quebram o silêncio dos jardins.
O mito de que corvos proclamam tragédias ainda persiste, talvez devido à plumagem negra, aos hábitos necrófagos e ao grasnar cavernoso. Não o fazem. São notavelmente inteligentes: constroem e usam ferramentas para obter alimento, fazem planos, lembram-se de rostos humanos... Graças à memória aguçada e à agilidade de aprendizagem, podem seguir pessoas que os tenham alimentado, mas sem intimidá-las. Chegam, contudo, a perseguir quem os tenha ameaçado, emitindo gritos de alerta. Não, não são rancorosos; compartilham informações sobre situações de risco, ampliando as chances de sobrevivência do grupo.
John Marzluff, especialista em ciência da vida selvagem, publicou que corvos americanos capturados e anilhados por investigadores usando máscaras com feições deformadas, distintas de rostos humanos reais, depois de soltos, assediavam quem as usasse. Mais surpreendente ainda, os membros não treinados do bando adotaram o comportamento, que se estendeu até a sétima geração. Isso comprova memória de longa duração e transmissão cultural.
Embora muitos usem ferramentas, sua produção na natureza é rara. Foi observada em apenas duas espécies insulares: uma da Nova Caledônia, arquipélago no Pacífico, e outra do Havaí. Elas escolhem galhos e os convertem em ganchos para alcançar suas presas escondidas em troncos ocos ou na vegetação.
Outros, como o corvo americano, não as produzem, mas aprendem a usá-las. E essa aptidão diferencia os sexos: os machos levam semanas para aprender que ao jogarem pedras em um tubo de acrílico elevam o nível da água e conseguem pescar uma minhoca que flutua na superfície. Já as fêmeas são rápidas e eficazes nesse aprendizado. Exames de PET-CT mostraram que, durante o treinamento, as fêmeas tinham maior atividade em áreas do cérebro ligadas à aprendizagem e ao tato, tal como as fêmeas de chimpanzés, também usuárias eficientes de ferramentas. O pesquisador Pavel Nemec atribui essa capacidade à altíssima densidade de neurônios no neocórtex aviário, maior que no córtex dos primatas, mesmo sendo o cérebro dessas aves do tamanho de uma noz.
As habilidades dos corvídeos inspiraram, em 2018, um projeto de educação ambiental no parque Puy du Fou, na França: seis corvos foram treinados para recolher bitucas de cigarro e depositá-las em uma máquina que liberava alimento como recompensa. Aprenderam rapidamente, e os mais astutos quebravam as bitucas para obter uma porção extra, revelando capacidade para solucionar problemas que exigem planejamento e flexibilidade cognitiva.
