Quando se pensa em saúde infantil, o foco imediato costuma recair sobre doenças físicas e transtornos do desenvolvimento, e isso é fundamental. No entanto, há outra dimensão da saúde infantojuvenil que merece a mesma atenção clínica: a avaliação precoce das altas habilidades/superdotação e suas repercussões no bem-estar emocional, comportamental e relacional. Tratar a superdotação apenas como uma questão escolar é subestimar seu impacto sobre a saúde mental e ignorar o papel da avaliação neuropsicológica na promoção de trajetórias mais saudáveis.
É importante esclarecer um ponto essencial: a superdotação não é um diagnóstico, tampouco uma doença ou transtorno. Trata-se de uma condição neurobiológica, um modo específico de funcionamento cerebral, marcado por desempenho cognitivo acima da média em uma ou mais áreas. Não existe código diagnóstico para a superdotação, e o foco clínico não deve estar em “diagnosticá-la”, mas em compreender como esse cérebro funciona, suas potencialidades e os sintomas associados que podem estar presentes.
Altas habilidades também não se resumem à imagem da “criança que vai bem nas provas”. Muitas apresentam processamento acelerado, pensamento complexo, curiosidade intensa e sensibilidade emocional ampliada. Quando esse perfil não é compreendido a partir de um olhar em saúde, podem surgir sinais de sofrimento como tédio persistente, ansiedade, isolamento social, baixa tolerância à frustração, perfeccionismo paralisante e sintomas internalizantes. Evidências em neuropsicologia indicam dificuldades relevantes de regulação emocional quando necessidades cognitivas e afetivas não são reconhecidas.
O tempo da avaliação faz diferença. A detecção precoce, integrando avaliação neuropsicológica, escuta clínica da família e observação do contexto escolar, favorece intervenções que reduzem riscos emocionais. Esse cuidado é ainda mais decisivo nos casos de dupla excepcionalidade, quando altas habilidades coexistem com TDAH, transtornos de aprendizagem ou transtorno do espectro autista. Nesses casos, avaliam-se clinicamente os sintomas adjacentes associados a esse funcionamento cerebral. Sem protocolos sensíveis e multidimensionais, o talento pode ser ofuscado pelas dificuldades, intensificando o sofrimento psíquico.
Do ponto de vista da saúde, a avaliação precoce não visa rotular a criança, mas orientar o cuidado. Uma avaliação neuropsicológica bem conduzida identifica forças, vulnerabilidades e necessidades específicas, permitindo planos de acompanhamento voltados à regulação emocional, manejo da ansiedade, desenvolvimento de estratégias adaptativas e, quando necessário, articulação com psicoterapia, acompanhamento psicopedagógico e avaliação médica.
Ainda assim, há barreiras para que esse olhar se consolide. Instrumentos baseados apenas em testes padronizados tendem a privilegiar crianças com maior acesso a estímulos culturais, e muitos profissionais ainda carecem de formação para reconhecer sinais de altas habilidades e sintomas associados. A ausência de fluxos integrados entre escolas e serviços de saúde também dificulta o cuidado. Modelos multidisciplinares reduzem a subidentificação e qualificam o encaminhamento clínico.
Cuidar da saúde de crianças com altas habilidades é cuidar do futuro. Quando a avaliação precoce considera demandas cognitivas e emocionais, cria-se um ambiente favorável ao desenvolvimento do potencial sem prejuízo do bem-estar. Isso exige sensibilidade clínica, articulação entre áreas e a compreensão de que a superdotação também é um tema da saúde.
Thaís Barbisan
Psicóloga e neuropsicóloga, com atuação em avaliação do desenvolvimento infantil e intervenção psicossocial
@thatbarbisan
