Matusalém teria vivido 969 anos, Noé 950 e Adão 930. Não há evidências científicas ou históricas de que tenham existido seres humanos com longevidade tão extrema. Como explicar as idades dos patriarcas bíblicos antediluvianos? Historiadores, arqueólogos e teólogos acadêmicos consideram-nas simbolismos culturais ou sistemas diferentes de mensuração do tempo, e não dados biológicos. Seja qual for a explicação para a longevidade lendária desses “megacentenários” (permitam-me o neologismo), qual seria, afinal, o limite da vida humana?
Na Antiguidade e na Idade Média, a expectativa de vida (média de anos que uma pessoa poderá viver) oscilava entre 30 e 35 anos, alcançando os 50 ao final do século 19. Melhorias no saneamento básico e na medicina preventiva ao longo do século passado permitiram atingir idades mais avançadas. Aliadas à vacinação em massa, essas medidas reduziram a mortalidade infantil, elevando a expectativa de vida a patamares próximos aos atuais 80 anos. Como subproduto, aumentou a incidência de doenças relacionadas ao envelhecimento, entre elas as cardiovasculares, o câncer, o AVC e o Alzheimer.
Análises coordenadas pelo biodemógrafo S. Jay Olshansky indicam que a expectativa de vida chegou a 85 anos nos países desenvolvidos. Segundo as estimativas, cerca de 40% dos recém-nascidos chegarão aos 90, 5% alcançarão os 100, uma parcela ainda menor viverá até os 110 (os chamados "supercentenários"), mas pouquíssimos ultrapassarão os 115 anos. A GRG World Supercentenarian Rankings List, onde constam as pessoas mais longevas do mundo, registra 193 supercentenários vivos, com idades cientificamente comprovadas entre 110 e 117 anos. O recorde da francesa Jeanne Calment, que viveu 122 anos e morreu em 1997, ainda não foi superado. Para Olshansky, a probabilidade de alguém viver mais de 125 anos é tão reduzida a ponto de ser considerada insignificante. Mas as análises do bioinformata Evgeniy Efimov situam o teto da vida humana em até 194 anos.
Novas tecnologias buscam ampliar a expectativa de vida e promover um envelhecimento saudável. Estão em fase de testes a reprogramação celular, voltada ao rejuvenescimento das células; os senolíticos, compostos capazes de eliminar as "células zumbis" (assim chamadas por não se dividirem nem morrerem), as quais, ao se acumularem, liberam substâncias inflamatórias nocivas aos tecidos; e a edição epigenética, destinada a desativar genes ligados a doenças sem alterar o DNA. Já os nanorrobôs, capazes de destruir patógenos, desobstruir artérias e reparar células, ainda são protótipos de laboratório.
Por fim, alcançaremos a idade de Matusalém? Olshansky responde à pergunta de maneira adequada e oportuna: “Questões sobre os limites máximos da expectativa de vida devem ser deixadas para a demografia matemática, dedicada aos estudos da dinâmica da mortalidade em contextos nos quais poucas pessoas sobrevivem, ou para a ficção científica. Essa última parece ser a opção adotada por aqueles que preveem expectativas de vida além dos 100 anos, duração de vida superior a mil anos e, até mesmo, se aventuram em discussões sobre imortalidade. Preferimos concentrar o foco exclusivamente na extensão da vida saudável”. Fiat!
