Com o passar dos anos, muitas pessoas percebem uma mudança curiosa e, por vezes, desconfortável, na forma como o corpo reage ao álcool. Aquela taça de vinho ou o drinque ocasional, que antes parecia inofensivo, passa a provocar efeitos mais intensos no dia seguinte. O que muitos descrevem como uma ressaca mais pesada pode ser, na verdade, reflexo de mudanças naturais do envelhecimento que alteram a forma como o organismo metaboliza o álcool.
Segundo especialistas, o fenômeno não está relacionado apenas ao fígado. O processo envolve transformações em diversos sistemas do corpo, que tornam o organismo mais sensível à substância e ampliam os impactos do consumo.
A médica geriatra Maria Regina Pereira de Godoy, chefe do Serviço de Geriatria da Funfarme/Famerp, explica que o envelhecimento provoca alterações fisiológicas importantes que influenciam diretamente o metabolismo do álcool. “O envelhecimento apresenta algumas alterações fisiológicas que vão interferir no metabolismo do álcool, como a diminuição da água total e o aumento da gordura corporal fazendo com que o álcool fique mais concentrado no sangue levando a um metabolismo mais lento, já que ele é hidrossolúvel e como consequência intensifica e prolonga os seus efeitos. Além disso há uma maior sensibilidade do sistema nervoso central, aumentando os sintomas como tontura, confusão mental, demência, desequilíbrio e risco de quedas.”
Essas mudanças fazem com que a mesma quantidade de bebida tenha impacto maior no organismo. Além do sistema nervoso, outros órgãos também podem sofrer efeitos mais intensos. “Afeta quase todos os outros órgãos como o sistema cardiovascular podendo elevar a pressão arterial, aumentar o risco de acidente vascular cerebral, afeta também o pâncreas podendo levar a pancreatite, o sistema digestivo podendo provocar gastrite, ulceras e desnutrição.”
A hepatologista Rosamar Rezende, integrante do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo e membro titular da Sociedade Brasileira de Hepatologia, explica que a maior intensidade dos efeitos do álcool na maturidade não significa necessariamente que o fígado deixou de funcionar adequadamente. “Com o envelhecimento, não há necessariamente uma perda significativa da capacidade do fígado de metabolizar o álcool. O que ocorre, na prática, é uma maior exposição do organismo ao álcool após o consumo.”
Rosamar explica que mudanças metabólicas fazem com que mais álcool chegue à circulação sanguínea. “Isso se deve a algumas mudanças naturais da idade, como a redução da atividade de enzimas envolvidas no metabolismo do álcool, como a álcool desidrogenase (ADH), a acetaldeído desidrogenase e o citocromo P450 2E1. Além disso a diminuição do chamado metabolismo de primeira passagem no estômago, relacionada à menor atividade da ADH gástrica, devido a atrofia da mucosa gástrica, o que faz com que mais álcool chegue à circulação, somada a redução do volume de água corporal com a idade, resultam em concentrações mais elevadas de etanol no sangue para a mesma dose ingerida. Assim, mais do que uma falha hepática propriamente dita, o envelhecimento leva a maior exposição do organismo ao álcool.”
Essa maior exposição ajuda a explicar por que sintomas podem parecer mais fortes ou prolongados. “A redução do volume de água corporal é uma das principais mudanças que intensifica os sintomas de ressaca em pessoas mais velhas. Com o envelhecimento, a proporção de água corporal diminui, resultando em concentrações sanguíneas mais elevadas de álcool e seus metabólitos para a mesma dose consumida. Isso amplifica os efeitos tóxicos do acetaldeído e outros subprodutos do metabolismo do álcool ao organismo”, afirma a hepatologista Rosamar.


