“Não existe pecado do lado de baixo do Equador. Me deixa ser teu escracho, capacho e quando é lição de esculacho, capacho, teu cacho, um riacho de amor. Quando é lição de esculacho, olha aí, sai de baixo, que eu sou professor”.
Quem é da minha geração se lembra dessa canção composta por Chico Buarque e Ruy Guerra (1973) que fazia uma crítica ao modo como os exploradores europeus viam o Brasil: um antro de perdição, onde tudo era permitido. O Brasil era um paraíso de liberdade sexual, uma mistura de gente sem nenhum respeito à “ordem” do mundo, então, “deixa a tristeza pra lá, vem comer, me jantar sarapatel, caruru, tucupi, tacacá. Vê se me usa, me abusa, lambuza que a tua cafuza não pode esperar”.
Bem, já que éramos pecadores e desregrados, então pecaríamos com método e ironia e festa, como fez Chico nessa canção que, entre garfadas de sarapatel e danças das cafuzas, desmascarava a seriedade hipócrita do europeu explorador de nossas riquezas.
Um salto no tempo e chegamos a 2026! A cena agora é de avenidas congestionadas, gente buzinando feito louca e carros pretos passando em direção à Polícia Federal. Pensei: “Meu Deus, o que será isso? Será que encontraram o André do rap?” Quase adivinhei! Liguei o rádio e ouvi que naquele momento prendiam Daniel Vorcaro, o banqueiro milionário que trocava favores com os ministros e vivia postando fotos em cima de seus na Baía de Guanabara, e sua máfia, onde “não existe pecado ao sul do Equador”, quando é lição de esculacho”.
Vorcaro, esse “embaixador” do perverso "jeitinho brasileiro", usava o Estado como capacho dos seus desejos absurdamente materiais, abusando da confiança pública e deixando um rombo financeiro avultante desviado do erário público e de famílias trabalhadoras. Esse ladrão de terno Armani, posava de homem de negócios nos Threads, sussurrando seu mau caratismo, “me usa, me abusa”, pois foi isso mesmo que ele fez: usou, abusou, prejudicou, corrompeu a vida de muita gente.
Nesse Brasil de 2026, onde drones vigiam praias, ruas, casas, corações e mentes, nada mais me surpreende. Do viaduto da Lapa, por onde eu passava quando Vorcaro era preso, aos gabinetes de Brasília, o deboche persiste: sai de baixo, brasileirada contribuinte, trabalhadora, “capacho” – que o professor Vorcaro tá passando, e ele sabe o que faz.
E o que sobra? Um desânimo, um descrédito coletivo, pois o banquete continua para empresários milionários, abusadores da fé, que satirizam a cara dos trabalhadores da “cafuza” explorada, trabalhadora, enganada.
Pois é... Chico Buarque e Ruy Guerra já haviam dado o recado a nós, habitantes do lado de baixo do Equador: quando o pecado deixa de ser metáfora e se transforma em sistema, a festa deixa de ser do povo e passa a ser dos bandidos dessa categoria - como Vorcaro, “o professor do esculacho” e sua máfia — que transformam o país num grande escracho institucional.
Simone Cristina Succi
Doutora em Linguística Aplicada, professora e redatora de materiais didáticos.
